PENSAMENTOS ABERTOS E LIVRES - 212 (?)

A todos os cristãos: este artigo de Carmen Garcia é um bom exemplo daquilo que todos nós, cristãos, deveríamos fazer. Em especial, embora não tão enfaticamente, a hierarquia da Igreja, sem que implicasse a indicação do voto. Aí vai, pois, o artigo publicado hoje no jornal Público. “Não gosto de escrever sobre política. Nem aqui, nesta coluna, nem em nenhum outro lugar. Acontece que considero que nunca como agora foi tão importante abrir uma excepção. Aliás, considero que qualquer pessoa com algum alcance no espaço público tem o dever moral de se posicionar neste momento. E é isso que pretendo fazer. No domingo passado saí de casa para votar num candidato que não conseguiu chegar à segunda volta destas presidenciais. E depois segui a noite eleitoral com toda a atenção que consegui ainda que, em certos momentos, quase me tenha dado vontade de desligar a televisão — concordamos todos que há comentadores na nossa praça que são difíceis de digerir, certo? Mas tudo isto para dizer que estava bastante concentrada na transmissão quando André Ventura falou pela primeira vez. E foi-me difícil engolir a raiva quando percebi que, mais uma vez, o fazia à porta de uma igreja. Reparem, eu não duvido da fé de André Ventura nem quero, de todo, interferir com o seu direito de participar na eucaristia ou de pura e simplesmente procurar força numa igreja. Aquilo de que começo honestamente a duvidar é que o candidato do Chega alguma vez tenha, de facto, frequentado a catequese. Antes de prosseguir deixem-se só sublinhar que André Ventura, que sabe muito bem como levar a água ao seu moinho, foi particularmente inteligente nessas declarações quando falou em cristãos. Não em católicos, mas em cristãos. Ele sabe, como todos nós sabemos, que os seus apoiantes evangélicos têm força e que não podem ser ostracizados — não é por acaso que o Chega tem deputados evangélicos na sua bancada e que, em algumas congregações, especialmente nas que têm origem brasileira, se apela directamente ao voto no partido. Mas adiante. Nos últimos dias, muitos católicos, grupo no qual me incluo, têm vindo a público afirmar de forma peremptória que há uma total incompatibilidade entre aqueles que são os valores da fé que praticamos e aquilo que André Ventura defende. E eu acredito que é francamente importante falar sobre isto porque é evidente que uma das estratégias de campanha do líder do Chega passará pelo piscar de olho à religião contando que as pessoas esqueçam que a fé que professam tem, na sua génese, um homem que morreu não por defender nações, ordens ou tradições, mas exactamente porque as quebrou. E, sim, esta crónica poderá ser uma perda de tempo para ateus, mas eu acredito que também é minha responsabilidade, como catequista que fui, contribuir para eliminar a ideia de que o cristianismo pode, seja de que forma for, ser compatível com ideias de extrema-direita. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja é claro quando diz que “a Igreja rejeita toda a forma de nacionalismo fechado”. E a Bíblia é pródiga em lições sobre acolhimento. No Antigo Testamento, em Levítico, encontramos que “o estrangeiro que reside convosco será para vós como um natural da terra; amá-lo-ás como a ti mesmo”. No Novo Testamento, no Evangelho escrito por São Mateus, lemos uma frase pequenina, mas que diz tanto: “Era estrangeiro e acolheste-me”. A salvação cristã vem do acolhimento, não de uma suposta identidade nacional. Por estes dias, é bom que todos os católicos recordem que a fé que defendem diz que todos somos um em Cristo. E isto é totalmente incompatível com o “primeiro os nossos” defendido pelo séquito de Ventura. O cristianismo é universal, nunca foi identitário. E não encaixa com cartazes que mandam imigrantes voltarem para a sua terra. E quando se tenta misturar à força a fé com uma suposta supremacia nacionalista o que obtemos, garanto-vos, não é cristianismo, mas idolatria política. “Quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão é mentiroso” é, possivelmente, uma das frases mais poderosas do evangelho de São João. E, acrescento eu, uma das que melhor descreve André Ventura. Bater com a mão no peito, comungar aos domingos, vender-se como símbolo de virtudes, mas depois incentivar ao ódio? Chamem a isto o que quiserem. Mas ser cristão não será certamente. Até porque um cristão não divide, não segrega, não considera que existem os portugueses de bem e os outros. Talvez os não católicos não tenham ideia disto, mas sabem qual foi o gesto mais subversivo de Jesus? Lavar os pés aos seus discípulos. E sabem porquê? Porque o lava-pés é um gesto de abaixamento voluntário e de igualdade radical que, mais do que piedoso, foi um manifesto de Jesus contra toda a autoridade que não serve. Quando lavou os pés aos seus discípulos, incluindo àquele que haveria de o trair, Jesus não quis saber de nacionalidade, riqueza ou fidelidade ideológica, mas quis mostrar que a verdadeira liderança é a que serve. No Chega, como noutros partidos semelhantes, existe um culto à figura do líder que me parece profundamente assustador. Os líderes são colocados em pedestais. No cristianismo, o líder ajoelhou-se para lavar os pés aos outros. E, sim, provavelmente todos os leitores ateus deste espaço estarão cansados de uma crónica que parece uma aula de catequese e que pouco lhes dirá, mas peço a cada um deles que, aceitando diferentes formas de viver, entenda que como católica não posso estar tranquila quando vejo um candidato a Presidente da República transformar a fé que comungo numa ferramenta de exclusão. O cristianismo nasce pelas mãos de um homem pobre, estrangeiro e servo e não de um poder que escolhe inimigos e mede a dignidade humana por pertença ou utilidade. É moralmente incompatível ser cristão e votar num partido que defende aquilo que defendem André Ventura e o Chega. E isto tem de ser dito sem medos. Prometo que termino agora a catequese, mas permitam-me recordar que Jesus nos deixou um mandamento novo. Esse mandamento pedia que nos amássemos uns aos outros assim como Ele nos amou. E Jesus ainda acrescentou que seria exactamente por esse amor ao próximo que os seus discípulos seriam reconhecidos. Algum de vocês encontra esse amor no séquito de Ventura? Comecei esta crónica por dizer que não gosto de escrever sobre política e que esta era a minha excepção. Permitam-me, pois, aproveitá-la para fazer algo que nunca antes fiz e apelar directamente ao voto num candidato. Porque na segunda volta destas presidenciais não estaremos, como sugere André Ventura, a escolher entre o socialismo e a única alternativa ao mesmo. Mas estaremos claramente a escolher entre o humanismo e o ódio, entre a dignidade e a exclusão. Não fui apoiante de António José Seguro na primeira volta e tenho a certeza de que ele não faz ideia de que, algures por Évora, há uma enfermeira de geriatria, mãe de três filhos, que vai escrevendo umas coisas aqui e acolá. Mas é nele que vou votar nesta segunda volta. E é ao voto nele que apelo hoje. Enquanto país, neste momento, António José Seguro é o nosso único caminho.”.

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