domingo, 24 de fevereiro de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

MUXIMA





Não resisto a colocar esta página do Jornal de Angola o qual retrata parte do desenvolvimento que está a ocorrer em Angoa.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Luanda o primeiro dia

Por Onofre Martins dos Santos







Há quase uma semana que a nau de Paulo Dias navegava ao longo daquela língua de areia que o impedia de encostar a terra firme. Com o seu binóculo assestado descobria finalmente um morro mesmo à sua frente que lhe parecia propício para aí estabelecer um fortim já que vinha com o propósito de lançar as bases de uma feitoria à semelhança de outras que desde as primeiras ilhas no Atlântico os portugueses vinham fundando pela costa ocidental africana. Ao aproximar-se, deu-se conta de uma segunda língua de areia, mais pequena, que formava uma formosa baía e um porto de abrigo que lhe parecia seguro mas cuja entrada o obrigaria a uma manobra mais complicada contornando o cabo em águas muito baixas e agitadas.

Paulo Dias assestou o óculo para aquela língua de areia branca pontilhada por inúmeras palhotas podendo aperceber-se que era densamente povoada, provavelmente por pescadores pois eram visíveis muitas pequenas embarcações arribadas na praia.

Paulo Dias conferenciou com o seu imediato e mais alguns membros mais qualificados da sua tripulação e tomou a decisão de ancorar ali e enviar um primeiro bote com pessoal de confiança e o intérprete que tinham trazido do reino de N’gola para travar um primeiro contacto com aquela gente, saber se era gente hospitaleira e ajustar uma audiência do Capitão com o chefe daquela ilha. “E tu vais também, Octávio, como cronista desta viagem vais ter a oportunidade de escrever a primeira página da história desta terra...”

“Mais velho, mais velho, conta então a história da chegada dos tugas... há tanto tempo, 437 anos...”

A miudagem na praia cercara o velho que todas as manhãs vinha até ali, na ponta da ilha, gozar os seus últimos raios de sol, olhando o mar com o rosto franzido e os olhos azulados por tantas cataratas que já só o deixavam perceber vagamente as cores da areia, da espuma da rebentação e do mar platinado e sem fim à sua frente. O barulho das ondas despertava lágrimas e demasiadas saudades no velho mas logo o seu rosto se animava com um largo sorriso ao ouvir os rapazes em alvoroço fazendo perguntas à sua memória de ancião. Como eles o levavam de volta aqueles dias felizes em que de prancha debaixo do braço vinha para ali, para aquele mesmo local, mostrar as suas habilidades enfrentando e deslizando nas ondas para admiração das moças mais lindas das redondezas. A vida não fora fácil para ele, tivera de deixar a sua ilha mas nunca esquecera o mar nem os seus primeiros amores vividos entre as carícias do mar e da mulher que todos os dias vinha até ali só para  a recordar.

”A história, queremos ouvir a história de Luanda...”

“Foi sim, foi há muito tempo... o primeiro branco que pôs o pé nesta areia tinha o mesmo nome que eu... o meu avô foi que me contou a história que ele tinha ouvido do avô dele e assim até esse ano da chegada dos portugueses...”

“Então, não foi mesmo o Paulo Dias o primeiro a chegar aqui em Luanda?”
“Ele era o Capitão, mandou o seu pessoal para ver como era, se podia desembarcar e ser recebido pelo Soba... mas o homem que pisou primeiro a praia aí mesmo foi esse Octávio que era o escritor de tudo o que se passava no barco, registava as terras onde chegavam, as pessoas que encontravam...”

“Afinal, foi assim? Não foi um chefe tuga que chegou primeiro? Mas conta então como ele foi recebido como é que tudo aconteceu?”

“Bom, meu avô me contou que quando o barquito a remos se aproximava da praia, toda a gente começou a falar, a apontar, uns corriam a avisar os mais velhos, aquele barco era diferente das nossas canoas... e aquela gente era muito diferente, não vestia panos...”

O velho estava feliz, com os miúdos à sua volta, ele podia contar o que quisesse, sempre tivera muita imaginação e nada lhe garantia que a sua história fosse exactamente como o avô lhe transmitira e antes deste várias gerações de avós até àquele dia, há 437 anos...

Na sua ansiedade de pisar terra desconhecida até então, Octávio nem esperou que o barco aproasse na areia fina da praia e saltou para a água ficando todo molhado até à cintura e com as botas a cuspir água e areia ao dar os primeiros passos em direcção àquela gente que o recebeu, por essa razão, com grandes risadas de troça mas sem maldade, a que Octávio respondeu com um sorriso amarelo que se foi abrindo perante o acolhimento sonoro de que foi alvo devido à sua precipitação.

Coube ao intérprete dizer as primeiras palavras, fazer as primeiras perguntas que os outros apenas podiam seguir pelas expressões estampadas nos rostos dos circunstantes, ora de surpresa, ora de curiosidade, ora de alguma preocupação e até receio... e pelos gestos das mãos que melhor falavam por eles. Uns apontaram para as canoas e para as redes dependuradas, um outro mostrou um pequeno búzio que tirou do pano em que estava cingido apontando com o dedo para a orla do mar, outro finalmente apontou para o interior da ilha, e todos os olhos dos recém-chegados procuraram vislumbrar um cercado de palhotas que devia albergar o paço do chefe local.

O intérprete explicou à comitiva que aquela era uma terra de pescadores e que também ali se recolhia o zimbo que funcionava como meio de troca com a outra gente do outro lado da baía... o Soba era um homem muito importante e muito respeitado em todas as terras ali à volta e vivia no seu palácio no meio da ilha.

A comitiva escutou e fez sinal de avançar em direcção ao paço do chefe da ilha pelo que aquela pequena multidão de homens, mulheres e crianças abriu naturalmente passagem para aquela gente estranha entre os murmúrios das mulheres, risos das crianças e comentários desconfiados dos mais velhos que, por natureza não apreciam muito as novidades que lhes venham quebrar a rotina.

O imediato de Paulo Dias assumiu a responsabilidade de se dirigir ao mordomo do Soba, para com a ajuda do intérprete entregar uma nota do comandante da nau, dirigida ao chefe da ilha, solicitando a sua autorização para ali se manter ancorado e visitar a ilha, travar contacto com a população, trazer alguns presentes e discutir formas de comércio com as gentes daquela terra. Logo que uma audiência lhe fosse concedida ele viria prestar as suas homenagens à autoridade local.

Octávio aproveitou para conhecer a ilha e, como era jovem e bem parecido, notou com agrado, o sorriso luminoso de uma jovem que vira logo à chegada, primeiro troçando do seu desastrado desembarque e agora o fixava com um ar de divertida curiosidade.

A jovem envolta num pano colorido que a cingia toda mas deixava entrever um corpo esbelto, um pescoço esguio e adivinhar uns peitos ainda pequeninos, impressionara de tal modo o cronista que dela se aproximou tentando com gestos e sorrisos ganhar a sua confiança e amizade. Colocou o seu braço ao lado do dela para que se visse o contraste das duas cores e ambos olhavam maravilhados para aquela combinação que tanto podia significar diferença, separação, como harmonia, sintonia, conjunção.

Octávio hesitava, não sabia o que dizer e o que dissesse, por palavras ela não o entenderia. O intérprete naquele momento também não seria de qualquer valor, pois, mais do que palavras, entendimento, Octávio queria gozar o deslumbramento que o arrebatava e que o fazia já amar aquela terra que com ela se identificava.
A moça voltou a sorrir, menos acanhada que Octávio, o que não admira pois que era ele o forasteiro e ela a dona da terra, e pegou-lhe na mão, convidando-o a acompanhá-la. Octávio já observara que dar a mão não tinha o mesmo significado de intimidade que ele estava habituado a considerar, por ali dar a mão era apenas um sinal de companhia, de solicitude.

Retribuindo a delicadeza da jovem,  Octávio deu-lhe a mão e seguiu-a pela ilha fora, enquanto na paliçada do Soba os enviados de Paulo Dias, com a ajuda do intérprete se desdobravam em explicações, narrativas de viagens pelo mar tenebroso e descrições do reino de Portugal, uma espécie de praia como esta, um pouco mais larga, lá longe onde, não, não podiam ir naquelas canoas...

A bela jovem que tão logo conquistara o coração do cronista de Paulo Dias foi-lhe mostrando uma a uma as maravilhas daquela ilha encantada. Naquele tempo, explicava o velho  na praia, a ilha era toda coberta de palmeiras, havia muito coco, era comida e bebida que nunca faltava, as casas eram cobertas das palmas das palmeiras, havia muita sombra, as pessoas trabalhavam na pesca ou na apanha das conchas e búzios para o cofre do Soba, enquanto as mulheres tratavam de bordar os seus panos, cuidavam das redes, cozinhavam os mufetes que deixavam todos saciados e ainda havia na bilha um bom marufo para ajudar a passar o tempo no fim do dia.

            “Então a ilha era um paraíso mesmo?”

“A ilha sempre foi o paraíso... ainda hoje, já não há palmeiras, olha só, os prédios altos tomaram conta de tudo, os carros fazem barulho, está tudo sujo... mas as pessoas quando estão na ilha é como os miúdos na escola e vão correr para o recreio...”

“E o mais velho, também?

“Para mim a ilha é uma mulher que eu amei e não vou esquecer é nunca... por isso a ilha pode mudar, podem vir milhares de pessoas e abrirem centenas de bares de praia e restaurantes que eu só vejo o que eu quero ver... e continuo a ouvir o vento a dar nas copas das palmeiras a fazê-las dançar e a cantar enquanto a minha mão está na mão dela até eu morrer... não falta muito...”

“Não fala isso, mais velho, o mais velho não vai morrer é nunca... senão quem nos vai contar as nossas histórias... mas, mais velho como foi que acabou essa história desse teu antepassado com a filha do soba?

Não contei já? Mais de mil vezes? Ele não sabia que ela era filha do chefe... gostou dela muito mesmo... mas ele era branco e tinha de voltar no barco do Paulo Dias... ele é que deu para o capitão o nome da cidade...

Octávio esqueceu o tempo e o dia já estava a declinar. O Sol tinha já iniciado a sua descida para o mar deixando as suas marcas arroxeadas no céu para prevenir que chegava a hora de falar baixo, sussurrar carinhos sob a complacência e o lento abanar das palmas lá no alto das palmeiras. Tinha visto tanta coisa, a sua jovem companheira, como uma cicerone exímia, havia-lhe mostrado as conchas lindas que se apanhavam na praia, as canoas de pesca  que ele percebeu ela chamava dongos, mostrou-lhe os pescadores que estavam na sua faina de puxar as redes e viu depois maravilhado a multidão de peixes a debaterem-se nas malhas em relâmpagos prateados, levou-a a uma das palhotas onde partilhou uma saborosa refeição de peixe galo braseado que regou com uma refrescante quissângua.

Octávio nunca vira gente assim tão acolhedora e generosa e acreditou, certamente, que naquela língua de areia cercada de palmeiras ondulantes, ele tinha chegado ao paraíso. Nem faltava a Eva que em vez de uma maçã lhe estendia um búzio que ela levara ao ouvido convidando-o por gestos a fazer o mesmo. Octávio ouviu então o som do oceano, aquele som misterioso que nos leva por cima do trono das águas, que nos assusta quando nos precipita no abismo mais profundo mas nos extasia quando nos devolve à serena tranquilidade de uma praia, como aquela onde ele agora só tinha olhos para  a beleza incomparável  daquela jovem por quem já se sentia perdido de amores e dela nem sabia o nome.

Estavam agora encostados à canoa, não havia mais ninguém por perto... ela tirou de dentro da canoa uma esteira enrolada que abriu sobre a areia. Sentada na esteira de bordão macio ela estendeu a mão para Octávio e desta vez aquela mão lhe pareceu a cabeça da serpente tentadora aproximando-se para o devorar.
Lentamente Octávio começou por tirar as botas ensopadas, e quando já só lhe restava a blusa prestes a ela também ficar a flutuar sobre a canoa, perguntou-lhe, na sua língua incompreendida ainda, como ela se chamava. Ela ficou curiosa com a pergunta, inclinou o rosto, mostrando dúvida sobre aquelas palavras engraçadas que não entendia... . Ele então pôs um dedo sobre o peito e disse o seu nome... e depois levou o seu dedo ao coração da mulher...Esta sorriu... continuava a não entender... com a sua mão delicada bateu na esteira... fofa, macia, convidando a deitar e disse: “luanda!”

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013