segunda-feira, 18 de julho de 2016

domingo, 3 de julho de 2016

terça-feira, 14 de junho de 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ENTREVISTA DO JORNAL DE ANGOLA A ÓSCAR CARDOSO

Tendo recebida esta entrevista dou-a como credível para ser transcrita

"

Assunto: Óscar Cardoso - A Unita/MPLA - A família SoaresEx-secreta Português revela verdades contra UNITA
Numa quinta algures em Portugal o Jornal de Angola entrevistou aquele que foi o segundo homem da hierarquia da PIDE em Angola e que fundou  “Flechas”.

Depois da “Revolução dos Cravos” como especialista em guerra subversiva
foi trabalhar para o regime de Ian Smith no Zimbabwee depois para as Forças de Defesa da África do Sul na altura em que estas começaram a organizar e a coordenar na Jamba e na faixa de Caprivi as actividades das forças da UNITA que interessavam à sobrevivência do regime de apartheid. O operacional da PIDE conta toda a sua história.
Óscar Cardoso foi inspector-adjunto da PIDE/DGS. Era o número dois da organização em Angola.

Jornal de Angola – Foi para Angola como militar ou já ao serviço da PIDE ?
Óscar Cardoso – Eu era um homem de confiança do regime e a PIDE soube que o director da polícia em Angola, São José Lopes, estava metido numa conspiração com a Rodésia e a África do Sul para proclamarem a independência do território. Com São José Lopes estavam pessoas com grande poder económico na província. Era preciso travar aquilo. Fui para Luanda com essa missão. Nessa altura já era inspector.
JA – Conseguiu travar essa conspiração ?
OC – A minha missão era secreta, mas São José Lopes soube tudo ainda eu não tinha desembarcado em Luanda. Por isso, quando cheguei, mandou-me para o Cuando Cubango alegando que havia movimentos subversivos na região que era preciso travar. Quis ver-se livre de mim, rapidamente. Na verdade as forças do MPLA usavam o norte do Cuando Cubango para se infiltrarem no planalto central e o Savimbi queria fazer a guerrilha naquela zona. Eu estudei antropologia na Escola Colonial e interessei-me pelos khoisan, os chamados bosquímanos. Conheci-os ao vivo. Quanto à conspiração, eles pararam na altura mas nunca abandonaram o projecto. Logo a seguir ao 25 de Abril, retomaram-no.

JA – O que concluiu com os seus estudos ?
OC – Os bosquímanos foram empurrados para os locais mais inóspitos e por isso odiavam todos os que não eram da tribo. Verifiquei que eram pisteiros espantosos. Liam os rastos como nós lemos um livro. Sabiam se as pegadas eram de homem ou mulher, se iam carregados ou não. Um dia até me disseram que a pista era de uma mulher grávida. O administrador Amaral Pontes tinha uma grande paixão pelos bosquímanos. Chamavam-lhe Tata Kun. Um dia decidimos fazer deles uma força contra os grupos da UNITA que queriam implantar-se no Cuando Cubango. Como as suas armas eram os arcos e flechas, pus-lhes o nome de “Flechas”.

JA – A UNITA foi criada pela PIDE ?
OC – Não, a UNITA foi criada pelo Savimbi e mais alguns companheiros, que receberam treino político e militar na China. Nós conhecíamos o perfil de todos e quando se instalaram na Frente Leste fomos estabelecendo contactos. Eles estavam a ser muito úteis porque combatiam as forças do MPLA. Mas depois infiltraram-se na zona do Munhango e começaram a incomodar a actividade dos madeireiros. Nessa altura fizemos o que qualquer força de inteligência militar faz: estabelecemos contactos com Savimbi e os seus oficiais.

JA – Está a falar da “Operação Madeira” ?
OC– Exactamente. O pessoal da PIDE e do comando da Frente Militar Leste começou a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Conseguimos resolver o problema dos madeireiros. Logo nos primeiros contactos verificámos que o Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater ao lado das tropas portuguesas.

JA – Quem fez os contactos com a UNITA no Munhango ?
OC – Alguns nomes são públicos, mas eu não vou repeti-los. Por uma questão de ética só dou eu a cara. E refiro o senhor general Bettencourt Rodrigues porque ele nunca escondeu o seu papel na Operação Madeira. O Savimbi estava cheio de vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade.

JA – Savimbi fez alguma exigência para lutar ao lado das tropas portuguesas e dos Flechas da PIDE  ?
OC – Fizemos um acordo, ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em troca armas, apoio logístico e médico. O Savimbi esteve várias vezes internado no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais tarde. Recebeu tratamento várias vezes num hospital da África do Sul que tinha uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA.
JA – Depois da “Operação Madeira” a UNITA fez operações contra a tropa portuguesa ?
OC – Fez algumas, para limpar a imagem. Quando se soube que Savimbi estava do nosso lado, perdeu prestígio em África. E ele queria mostrar que eram mentiras para o prejudicar. Fez uma operação que quase me custou a vida. Mas Deus salvou-me.

JA – Não me diga que Deus estava ao lado da PIDE ?
OC – Pensem o que quiserem, mas eu fui salvo por Deus. Quando os comandantes Sachilombo e Pedro foram para Gago Coutinho, algum tempo depois começaram a circular notícias que davam a UNITA como uma organização ao serviço da PIDE. Então o Savimbi, que era muito traiçoeiro, resolveu fazer uma operação para limpar a imagem negativa. Armou-me uma cilada. Queria matar-me, matar um coronel da Força Aérea da África do Sul e o major Sachilombo.
JA – O que aconteceu ?
OC – O Savimbi mandou dizer que queria mandar um grupo grande de guerrilheiros para nos ajudar  na III e na IV Região do MPLA. Disse que o comandante Nzau Puna ia comandar esses grupos. Montámos a Operação Viragem e tratámos de todos os pormenores. O ponto de encontro era perto de Cangamba. Nós mandámos Flechas por terra em direcção ao local. Eu e o major Sachilombo fomos num helicóptero sul-africano, pilotado por um coronel. Aterrámos a cinco quilómetros do objectivo, num pequeno planalto, como estava previamente combinado. Veio ao nosso encontro um homem andrajoso, mas com as mãos e as unhas bem tratadas. Fiquei desconfiado com isso.

JA – Retiraram da zona ?
OC – Desconfiei e manifestei as minhas desconfianças ao major Sachilombo. Mas decidimos acompanhar aquela figura estranha. Dois quilómetros à frente, encontrámos os nossos Flechas. Estavam todos sem armas. Disseram que os oficiais da UNITA lhes pediram para guardarem as armas porque estávamos numa operação de amizade e não fazia sentido andarem armados. Fiquei ainda mais desconfiado. O guia indicou-nos um morro a cerca de dez quilómetros. Era lá que estavam os homens da UNITA e o Savimbi. Nesse momento o major Sachilonmbo chamou-me à parte e disse para sairmos imediatamente dali. Dissemos aos homens para se dispersarem e esperarem a chegada do helicóptero.

JA – Como escaparam ?
OC – Partimos apressadamente para o helicóptero e quando levantámos voo pedi ao piloto para sobrevoar o morro onde estava Savimbi e os seus homens. Mas o piloto disse que tinha pouco combustível e era melhor regressar a Cangamba para abastecer. Chegámos a uma hora que já não dava para regressar. No dia seguinte, ao nascer do sol, partimos para o local. Estava tudo limpo, mas sobre o morro caía uma chuva torrencial. Não se via nada. Demos algumas voltas até que o nosso radiotelegrafista em terra nos disse que quase todos os Flechas tinham sido mortos pela UNITA. Disse-lhe para desligar o rádio e esconder-se. Montámos uma operação de resgate. Os Flechas em terra tinham sido esquartejados. Foi horrível. Se não fosse aquela chuva hoje não estava aqui.
JA – Acabaram aí as relações com a UNITA ?
OC – Continuaram, mas quisemos saber o que tinha acontecido. Os seus homens disseram que o Savimbi decidiu montar a Operação Baile para limpar a imagem da UNITA. Queria apresentar a minha cabeça, as do major Sachilombo e do coronel sul-africano. Além disso ficava com o helicóptero como troféu. Assim provava que nada tinha a ver com a PIDE e ainda acusava os portugueses de estarem aliados à África do Sul. Dizer ao mundo que tinha morto em combate o fundador dos Flechas era um grande trunfo. E fazia o papel de justiceiro em relação ao major Sachilombo.
JA – Essa foi a única operação contra as forças portuguesas ?
OC – Ainda fizeram mais uma ou duas operações contra as forças armadas portuguesas, sempre para mostrar que a UNITA lutava contra nós. Eu alertei para este comportamento, mas nada pude fazer quando, depois do 25 de Abril, a inteligência apresentou Savimbi como o “muata da paz” e a UNITA como o “movimento dos brancos”.

JA – Ninguém o quis ouvir ?
OC – Não, eu estava de licença graciosa em Portugal e apanhei lá os acontecimentos do 25 de Abril. Perdi os contactos e não pude agir. Aquela ideia de fazer do Savimbi o grande dirigente angolano da paz foi um erro trágico. Perderam os angolanos e os portugueses. Depois fui preso no Forte de Peniche. Estive lá dois lados. Comandei o forte e depois fui prisioneiro. Mas nunca ninguém me tocou com um dedo. Só quiseram destruir-me psicologicamente. Resisti.

JA  – A PIDE tinha infiltrados nos movimentos de libertação.
OC – Sim, nós tinhamos e eles também tinham pessoas infiltradas nos nossos serviços.

JA – Depois do 25 de Abril foi julgado em Tribunal Militar ?
OC – Fui julgado e na minha folha de serviços constavam relevantes serviços prestados à pátria, no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Apanhei dois meses de prisão por não me ter apresentado semanalmente no posto da GNR, como tinha sido determinado pelo Tribunal civil. Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril soube que a UNITA tinha torturado e assassinado o Soba Matias no Cuando Cubango. Fiquei em choque. Ele era um valioso combatente ao serviço de Portugal.

JA – Quem era o Soba Matias ?
OC – Um grande homem. Um dia foi ter comigo ao posto da PIDE em Serpa Pinto (Menongue) e disse que andavam homens da UNITA a fazer mal ao povo. Pediu-me oito armas para ir apanhá-los. Confiei nele e entreguei-lhe as armas. Apanhou os guerrilheiros da UNITA. Desde então, foi um combatente extraordinário. Depois do 25 de Abril os homens da UNITA foram à sua aldeia e mandaram-no arriar a bandeira portuguesa. Ele recusou. Torturaram-no até à morte e esquartejaram-no para servir de exemplo ao povo. Foi terrível.

JA – Mesmo sabendo disso, foi trabalhar com Savimbi na África do Sul ?
OC – Eu tive de fugir de Portugal. Passei 730 dias preso em Peniche e quando saí em liberdade condicional, participei em algumas operações do ELP e do MDLP. Fui denunciado e os revolucionários queriam prender-me outra vez. Quando o autocarro se atrasa 15 minutos ficamos logo nervosos. Eu passei 730 dias da minha vida no Forte de Peniche. Não queria ficar preso nem mais um minuto. Contactei os meus amigos da Rodésia e fui para lá. Saí de Portugal clandestinamente e em Madrid os meus amigos do MDLP arranjaram-me um passaporte. Eles tinham muitos passaportes, em branco. Tive que arranjar um nome falso.

JA – Como passou a chamar-se ?
OC – Rogério Ramon Pinto de Castro. Cada nome destes correspondia ao meu pseudónimo nas organizações a que pertencia: Exército de Libertação de Portugal (ELP), Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), Frente de Libertação dos Açores (FLA) e Frente de Libertação da Madeira (FLAMA). Preenchemos o passaporte e um amigo fez um carimbo com uma batata para parecer verdadeiro. Assim embarquei para Salisbúria (actual Harare, capital do Zimbabwe).

JA – Em Portugal participou nos atentados do MDLP e do ELP ?
OC – Ajudei a fazer atentados. Mas só atacámos as sedes do Partido Comunista. Ainda tentámos salvar Portugal, mas quando precisámos de um presidente, o general Spínola fugiu para o Brasil. Percebi logo que aquilo não ia dar nada.

JA – António Spínola não era o vosso chefe ?
OC – Nunca foi. O ELP foi fundado pelo coronel Santos e Castro. O MDLP foi criado pelo comandante Alpoim Calvão. A FLAMA tinha pouco peso e a FLA não ia a lado nenhum. A CIA pediu-me para ir aos Açores ver se havia possibilidades da independência do arquipélago. Mas isso só era possível se derrotássemos os comunistas. Moscovo estava por trás do 25 de Abril. Eles queriam Portugal na órbita comunista por causa das colónias. Mas percebi logo que não íamos a lado nenhum. Então decidi oferecer os meus préstimos à Rodésia.

JA – Trabalhou com a CIA ?
OC – Sim, trabalhei mas só depois do 25 de Abril. Fui aos Açores ver se havia possibilidade de declarar a independência do arquipélago. Os meus contactos foram muito importantes, mais tarde. O meu amigo Daniel Chipenda foi abandonado pelos americanos depois da independência de Angola e eu meti-o na CIA.

JA – Antes de irmos à Rodésia: qual foi o papel de Mário Soares no Verão Quente ?
OC – Serviu-se de nós. Ele queria poder a todo o custo. Apoiou os operacionais do ELP e do MDLP, trabalhou com a CIA, fez tudo o que Carlucci lhe mandou fazer. Quando conseguiu o que queria, abandonou os amigos. É muito parecido com o Savimbi. Por isso, sou capaz de me sentar à mesa com todos, menos com os socialistas.

JA – Qual foi o seu papel na Rodésia de Ian Smith ?
OC – Organizei as forças especiais, para enfrentarem os guerrilheiros da ZANU. Eu ganhei muita experiência em Angola e acabei por criar “Flechas” na Rodésia. Um ano depois, fui-me embora. Eles tratavam-me como se fosse um criado. Nunca fui tão maltratado. Meti-me num avião e aterrei em Joanesburgo. Viram o apelido Castro no meu passaporte, o meu rosto barbudo e disseram que era um espião cubano. Pedi um rand para telefonar ao brigadeiro Ben Roos. Recusaram. Ofereci dez dólares rodesianos por um rand. Nada. Depois veio um oficial, ouviu a minha história e deu-me um rand para telefonar. Falei com o brigadeiro e ele mandou logo os seus homens tirar-me do aeroporto.

JA – Foi assim que ficou a trabalhar com os Sul-Africanos ?
OC – A minha ideia era essa. Ben Roos disse-me que a África do Sul estava a preparar a batalha final contra Angola e que iam ganhar. Convidou-me para ser o oficial superior de ligação com os homens da UNITA e do Batalhão Búfalo. Aceitei. Mas alertei imediatamente o brigadeiro para a personalidade do Savimbi. Ele já sabia tudo . Foi assim que fui parar a Oshakati, onde montei o comando. E comecei a trabalhar com o pessoal da UNITA.
JA – Quem era o seu contacto ?
OC – Era o senhor Isaías Samakuva, um homem muito apagado e extremamente limitado. Tinha pouco rasgo. Não é fácil trabalhar com pessoas que não percebem nada do que lhe dizemos. Expliquei-lhe que a África do Sul queria que a UNITA servisse de tampão aos avanços da SWAPO. Mas o Savimbi tinha-lhe dito que a UNITA estava a lutar contra os cubanos e os russos e ele repetia esse discurso por tudo e por nada. Mas não tomava qualquer decisão. Quando vejo que hoje é líder da UNITA, fico admirado. Ele não serve para liderar seja o que for. Não tem qualidades.
JA – Nesta altura falou com Jonas Savimbi ?
OC – Muitas vezes. Mas ele nada tinha a ver com as operações, os sul-africanos não lhe davam confiança para isso. Em Oshakati e no Rundu só tratávamos de inteligência, de operações militares e de sabotagens. O Savimbi era o político, nada tinha a ver com estas coisas. A base militar principal era na Jamba. Os sul-africanos e os americanos criaram ali aquela estrutura, grande em qualquer parte do mundo. Lá nada faltava. Mas eu estava mais ligado à inteligência e às operações. No início, o objectivo era travar a SWAPO. O Savimbi aceitou as regras, mas cedo mostrou que o seu único pensamento estava no combate ao MPLA para um dia chegar ao poder em Angola. Além de traiçoeiro, ele era de uma ambição sem limites.
JA – Qual era a sua missão ?
OC – Fazia tudo. Vezes sem conta fui levar armas e munições à fronteira. Transportei dezenas de feridos. Eles eram retirados de Angola em bicicletas e chegavam à fronteira num estado lastimável. Quase sempre tinham que ser mandados para o Rundu. Quando o Hospital de Ondângua não respondia à gravidade dos feridos, iam para Pretória, para o Hospital Voortekerhoogte. Ali os serviços secretos criaram uma área só para o pessoal da UNITA. Ninguém tinha acesso a essa zona. Médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio eram todos credenciados pelos serviços secretos.

JA – A UNITA usava armas Sul-Africanas ?
OC – Nem pensar. A África do Sul não podia arriscar tanto. Montámos um esquema perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões carregados de material. Nesta altura, também estava activo o Batalhão Búfalo, treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por todos.

JA – Na Jamba encontrou aqueles políticos portugueses que iam ver Savimbi ?
OC – A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases. Os portugueses iam mais para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos à UNITA.

JA – Sabe o que aconteceu com o avião de João Soares ?
OC – Claro que sei. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto, comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado. Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido. A minha mulher foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer exames de Raios X. Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis.

JA – Como soube que um dos feridos era João Soares ?
OC – A minha mulher soube que os feridos eram todos portugueses. No dia seguinte já encontrou no hospital a mãe e a esposa de João Soares. Ele estava gravemente ferido. O nosso amigo Augusto, também. O tráfico de diamantes e de marfim daquela vez correu mal.

JA – João Soares diz que isso é invenção do Jornal de Angola.
OC – O avião estava cheio de marfim e diamantes. Perguntem ao nosso amigo Augusto, que ele confirma tudo. A UNITA roubava os diamantes em Angola e matava os elefantes. Depois os amigos iam à Jamba buscar o material.
JA – É verdade que os Sul-Africanos pediram a Mário Soares apoio à UNITA, em troca de lhe salvarem o filho ?
OC – Desconheço. O Mário Soares não foi à África do Sul ver o filho ao hospital. Maria Barroso esteve lá muitos dias. A esposa de João Soares também. É uma situação interessante. Eu trabalhava com os sul-africanos na ligação com a UNITA. E Mário Soares apoiava a UNITA em Portugal. Estávamos unidos no mesmo objectivo. Mas para mim, esse homem foi o que de pior aconteceu à minha querida pátria.

JA – Pertencia às Forças Armadas Sul-Africanas ?
OC – Trabalhei sempre com a inteligência militar. E sou coronel na reforma da Força Aérea da África do Sul. Fui condecorado. Quando chegou a altura de ir para casa perguntaram-me se queria uma pensão mensal ou se queria receber tudo de uma vez. Preferi o dinheiro todo. Deram-me 100.000 euros. Fui muito bem tratado na África do Sul. Participei nas negociações que conduziram à retirada das nossas tropas de Angola.
JA – Como oficial das forças Sul-Africanas ?
OC – Sim, nessa condição. Era perito em inteligência militar. Reuní-me com os oficiais angolanos e tratámo-nos todos com respeito. Do lado angolano estava gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de reconhecer que foram heróicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém. São os vencedores.

JA – Tem alguma pensão do Estado Português ?
OC – Tenho uma pensão, porque servi Portugal no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Fui condecorado e louvado. Mas agora andam a cortar-me a pensão. Estou muito triste com o presente de Portugal e apreensivo quanto ao futuro. Há demasiada corrupção. Deve ser o país mais corrupto do mundo. Depois as manobras do super capitalismo estão a lançar as pessoas na pobreza.

JA – Como vê as relações com Angola ?
OC – Também estou apreensivo. A maneira como tratam Angola é revoltante. Há situações de autêntica irresponsabilidade. Mas Angola e Portugal estão condenados a ter boas relações. Espero que todos os problemas sejam ultrapassados. A presença da China em Angola também me preocupa. Se eles não tivessem ambições expansionistas, não tinham um exército tão grande. Aqueles milhões de homens em armas não são apenas para as paradas.




quarta-feira, 20 de abril de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

VINTE ANOS DA CPLP

INTERVENÇÃO NO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA


20 anos da CPLP
UM OLHAR E UM SONHO

Caríssimos

Permitam-me umas breves palavras iniciais para os fundadores do Movimento Internacional Lusófono, na pessoa do Dr. Renato Epifânio para fazer o público reconhecimento pela associação criada há alguns anos e em especial pela realização destes eventos. Estou ciente que a realização destes congressos anuais, faz o seu caminho e leva uma mensagem adaptada aos tempos modernos que tão breve quanto necessário, produzirá efeitos globais no espaço lusófono. Não se erguem colunas de espaços sem o esforço de muitos, e a compreensão de outros, só desse modo se vencem obstáculos que à partida se pensariam intransponíveis, por outro lado o mediatismo por vezes tem sido perverso para consolidar projetos e o MIL é um projeto global que hoje caminha discreta e paulatinamente.
No âmbito destes congressos temos aprendido com o testemunho de muitos, divergimos de alguns, mas estamos unidos em pontos de convergência da lusofonia. Mesmo, quando o conceito de lusofonia seja ainda algo controverso, porque na essência estamos a designar falantes em língua portuguesa que podem ser lusos, brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos, são-tomenses, timorenses, guineenses entre outros.
Uma palavra de agradecimento à administração e reitoria da Universidade Lusófona, pelo fato de nos acolher nestas instalações. Sem desprimor para qualquer outra universidade pública ou privada em Portugal, é justo enaltecer o contributo que esta instituição tem dado na formação de muitos quadros superiores e intermédios nos países lusófonos, sejam eles pertencentes à administração pública ou à atividade económica privada. Também esta Universidade tem tido a sabedoria em ultrapassar as adversidades que têm surgido no mundo mediático, no entanto, é justo fazer este público reconhecimento e agradecimento.
Nos últimos anos tenho tido pequenas intervenções nestes eventos, as quais apesar de ocorrerem no tempo destinado a uma associação no caso a Casa de Angola, em nada vinculam a associação nem os angolanos, apenas e somente sou o responsável por esta intervenção, por isso o título: Um olhar e um sonho!
O título base deste congresso é a comemoração dos 20 anos da CPLP. Apesar de amplamente referenciado recordemos os objetivos gerais da CPLP:
Artigo 3º
“a) A concertação político-diplomática entre os seus membros em matérias de relações internacionais, nomeadamente para o reforço da sua presença nos fora internacionais;
b) A cooperação em todos os domínios, inclusive os da educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça, segurança pública, cultura, desporto e comunicação social;
c) A materialização de projetos de promoção e difusão da Língua Portuguesa, designadamente através do Instituto Internacional de Língua Portuguesa.”
Não pretendo ocupar demasiado tempo na análise estatutária sobre o funcionamento da CPLP mas de forma pragmática terei que considerar que os objetivos gerais são de tal modo tão alargados que por vezes pode pressupor que a estrutura da CPLP tem capacidade de intervir em todas as áreas, o que na realidade não acontece porque existe a autonomia dos Estados que compõem a CPLP.
È neste emaranhado de contradições e /ou desilusões entre a conceção teórica da CPLP e a sua prática que por vezes é linguagem corrente que a CPLP não serve para nada e torna-se inútil no apoio aos povos. Talvez aqui referir que os cidadãos e no caso em Portugal tem o modelo de comparação com a estrutura da União Europeia. Será injusto tecer esta comparação ou não? Digamos que em parte o comum do cidadão tem razão.
Entendemos que a CPLP surgiu num momento oportuno após a independência dos países africanos de língua portuguesa e como aglutinador de fechar o ciclo colonial e promover a identidade comum consolidando as convergências, na busca da paz que tanto se desejava e hoje estendida a quase todos os territórios. Também outras organizações internacionais surgiram para consolidar processos de paz entre povos.
Na CPLP ao invés de outras estruturas internacionais as decisões são tomadas por unanimidade na maioria das decisões e o peso de voto é igual “interpares”. Mas, tenhamos consciência que o mundo tem mudado ao longo destas duas décadas, países como Angola tem um envolvimento internacional como não ocorria no passado devido a diversos fatores internos e externos.
Caríssimos,
Assumo a minha angolanidade e com estas palavras não pretendo desrespeitar ninguém, mas com o olhar de um angolano com carreira e vida feita em Portugal, acredito que a CPLP pode e tem que ser mais forte e envolvente dos Estados e Povos que a constituem. Num futuro muito próximo, é já ali, faltarão duas gerações e pouco para que existam no mundo 400 milhões de falantes e dois terços viverão no Brasil e Angola. Como tal, o eixo de relevância é deslocalizado para o hemisfério sul.
Em 2016 o centro do mundo industrial e do desenvolvimento não está centrado na Europa, mas sim descentralizado, e como tal urge introduzir dinâmicas unificadoras entre os povos membros da CPLP. Se assim não acontecer, os interesses económicos e financeiros do mundo global que vivemos facilmente destruirão este sonho de irmandade que tanto apregoamos como exemplo para o Mundo, apesar de todos os focos de conflitos que existiram e outros surgirão.
Com muito pragmatismo defendo a existência de um acordo ortográfico único, seja ele qual for, só assim haverá contributo para que se cumpra o papel da língua portuguesa em diferentes áreas que vão desde o direito internacional ao reconhecimento de patentes, porque há força económica também para isso.
Não esqueçamos o espaço marítimo internacional que é controlado ou deve ser controlado pelos Estados lusófonos e subindo no ar, tem implicações no espaço aéreo porque, tenhamos consciência e assumamos infelizmente alguns dos nossos países lusófonos delegaram esta autonomia e responsabilidade em Estados vizinhos; daqui advém a perda recursos financeiros e questões de defesa vulneráveis.
Há um longo caminho ainda a percorrer no reconhecimento de competências profissionais e curriculares, entre Estados, quando assistimos a constância de preletores nomeadamente portugueses a deslocarem-se por exemplo a Angola lecionarem matérias que depois não são reconhecidas em Portugal.
Minhas Senhoras,
Meus Senhores,
Poderia continuar a elencar inúmeras questões do âmbito social, económico, cultural e desportivo, entre outras pelo que há a fazer no âmbito da CPLP. Tenho o sonho e a visão em acreditar na cidadania lusófona idêntica à livre circulação de pessoas e bens na União Europeia, porque hoje o dinheiro já circula de uma forma fácil e legalmente entre os Estados da CPLP, apesar dos casos ilegais e nefastos que são públicos. Tal como afirmei no ano passado prefiro capital proveniente de Angola e injetado numa empresa portuguesa e o inverso também ao invés capital vindo de Espanha ou de outras paragens.
Para aqueles que pensam o contrário e que respeito, olhem para a História da humanidade e constatem onde está o progresso e desenvolvimento em crescimento. Não esqueçamos de ter uma leitura bíblica para encontrar referências a povos que saíram do agora denominado médio-oriente e estacionaram no planalto angolano, onde por acaso existem as então denominadas “Minas de Salomão”.
Acredito na CPLP como estrutura de suporte à cidadania lusófona e eventos desta natureza, como este congresso, que tem que olhar para uma saudade de futuro e não passadista, pode dar contributos valiosos e conjugar esforços. Vivemos um tempo em que as politicas têm que ser mais exigentes e transparentes e os cidadãos contribuírem para influenciar os decisores políticos.
A terminar sem colocar em causa o papel promotor do MIL, urge criar uma plataforma que aglutine as associações das comunidades lusófonas residentes em Portugal para darem contributos sérios e valiosos na busca de soluções para resolver problemas de primeira necessidade às pessoas, desde a educação, à saúde, emprego entre outros.
Dou-vos um exemplo: faz sentido que artista oriundo de um país africano residente em Portugal há mais de dez anos e como é artista trabalha sem contrato de trabalho, no sistema de famosos recibos verdes, não lhe é concedida residência permanente porque não tem contrato vinculativo de trabalho?
Temos que dar sinais significativos para a plena cidadania lusófona, criando nos curricula do ensino nos diversos Estados conhecimentos sobre a lusofonia.
A união faz a força! Apesar das divergências, muitas resultantes das questões pontuais dos interesses a convergência é bem maior, e no caso angolano – português é um exemplo pragmático dos casos de amores e zangas existentes.
Agradeço a atenção dispensada e sonho que daqui a 20 anos possamos alguns de nós a comemorar outra data da CPLP e dizer com maior convicção: Valeu apena!
Está na hora!
Estamos juntos!
Disse!




  


domingo, 21 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

4 de FEVEREIRO

Hoje dia 4 de Fevereiro comemora-se o dia da luta armada em Angola. Naquele dia em 1961, deu-se a fuga de dezenas de prisioneiros da prisão de Luanda, tem sido importante o papel do Cónego Manuel das Neves. Hoje, o país vive uma crise tremenda, que saberá ultrapassar e durante estas décadas o povo angolano soube manter a sua unidade territorial e preservar valores culturais, que são identificativos no interior e exterior da Pátria.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O deputado que quis boicotar o 10 de Junho

A primeira manifestação do 10 de Junho depois do golpe de Abril foi alvo de uma tentativa de boicote violento por parte da extrema-esquerda. A PSP foi obrigada a abrir fogo para defender os cidadãos que pretendiam celebrar o Dia de Portugal e homenagear Camões. Um contra-manifestante morreu e outro ficou paraplégico: o agora deputado Falcato Simões, eleito pelo Bloco de Esquerda.
Um dos novos deputados mais falados pela comunicação social tem sido Jorge Falcato Simões, eleito pelo círculo de Lisboa nas listas do Bloco de Esquerda. O arquitecto de 61 anos, paraplégico desde 1978, apresentou a sua candidatura “independente” como uma forma de dar voz às pessoas com deficiência.

O facto de se deslocar em cadeira de rodas vai obrigar a construir rampas no hemiciclo e fazer várias obras em S. Bento para permitir a criação das necessárias acessibilidades à circulação do novo membro do Parlamento, conforme foi contado nos jornais e nos canais de TV. Até aqui tudo bem.

O que as televisões não contaram, foi como é que Falcato Simões ficou paraplégico.
Liberdade só para alguns
Em meados de 1978, apesar da derrota militar imposta às forças totalitárias – comunistas e extrema-esquerda – quase três anos antes, a 25 de Novembro de 1975,e das sucessivas derrotas políticas infligidas às mesmas forças em todas as eleições (legislativas, presidenciais e autárquicas), a rua, em Portugal, continuava a ser considerada monopólio das esquerdas.
Apesar das vicissitudes do período revolucionário, o 10 de Junho nunca deixara de ser reconhecido, pelo povo e pelas autoridades constituídas, como o Dia de Portugal e de Camões (a que se acrescentou, precisamente a partir de 1978, das Comunidades Portuguesas). Quando, pela primeira vez desde o golpe de 25/4/1974, alguém se lembrou de comemorar o 10 de Junho com uma manifestação de rua em Lisboa… caíram o Carmo e a Trindade.
Mas a convocatória da manifestação cumpriu todos os requisitos legais. E, naquele feriado patriótico, acabou mesmo por realizar-se no lugar marcado: o Largo de Camões, em homenagem ao Poeta.
Esquerdistas, totalitários e violentos
O problema é que, para os totalitários – em particular, os comunistas marxistas-leninistas, então organizados no PCP (R), Partido Comunista (Reconstruído), apoiado pela respectiva “frente de massas”, a UDP, que está na génese do actual Bloco de Esquerda –, à boa maneira estalinista, a liberdade, a democracia e o direito de manifestação só se aplicam a eles próprios e às suas causas…
Perante uma manifestação que se atrevia a descer à rua com o objectivo de celebrar Portugal e homenagear Camões, erguendo bandeiras nacionais e ousando declarar-se patriótica, os esquerdistas não tiveram a mais pequena dúvida. Havia que boicotar os “fascistas” e “nazis” (sic). E vai de convocarem uma contra-manifestação destinada a impedir, pela violência, o exercício da liberdade dos manifestantes pró-10 de Junho.
Quem mandou disparar
Para evitar confrontos, as autoridades – convém lembrar, hoje mais do que nunca, que estava em funções o II Governo Constitucional, sendo primeiro-ministro Mário Soares e ministro da Administração Interna Jaime Gama, ambos socialistas e ambos fundadores do PS – mandaram a PSP avançar.
E assim foi. Quando os agressores esquerdistas atacaram, a polícia foi obrigada a responder, para se proteger e para proteger os cidadãos que se manifestavam de forma ordeira, a coberto da lei.
Houve tiros. Um dos contra-manifestantes, um estudante de medicina de 18 anos, morreu. Outro participante na contra-manifestação violenta foi ferido com gravidade, acabando por ficar paraplégico. Era professor e, segundo um comunicado dos seus correligionários, “membro da UDP”. Chamava-se Jorge Falcato Simões.
37 anos depois
Passados 37 anos, Falcato Simões foi, com toda a legalidade, eleito deputado. A UDP deixou de existir como partido, mantendo-se como associação política dentro do Bloco de Esquerda. Nunca pediu desculpa pelo seu passado estalinista nem renunciou à via revolucionária para conquistar o poder.
É com esta força política que o actual líder do PS, António Costa, assinou um acordo para formar Governo. Que teve, naturalmente, o voto favorável do deputado Falcato Simões. O mesmo que foi boicotar uma manifestação de homenagem ao 10 de Junho, levou um tiro da polícia e ficou paraplégico