PENSAMENTOS ABERTOS E LIVRES - 231 (CITANTO JOÃO BRANDÃO FERREIRA)

PESSOAL, PERDEMOS O ALMENDRA! 01/06/2026 “Fique satisfeito em fazer o Bem e deixe os outros falarem de si, como quiserem”. Pitágoras “… em posição… já!” (do Grito de Guerra, dos Pára-quedistas). Assim poderia ter ecoado nas fileiras o falecimento deste verdadeiro “cabo de-guerra”. O Major - General Heitor Hamilton Almendra (oficial de Cavalaria, pára quedista, Zoio, 18/12/32 – Lisboa, 28/5/26), era um transmontano dos quatro costados, a quem O Espírito Santo insuflou a vida, a 18 de Dezembro, no já longínquo ano de 1932, na mui nobre cidade de Bragança. Completaria, no fim do ano, a vetusta idade de 94 anos. Foi casado com a Maria Teresa Assoreira, com a qual ajudaram a povoar a terra portuguesa, ao criarem seis filhos, o Frederico, a Sofia, a Rita, o António, a Patrícia e a Joana, os quais, por sua vez, lhes deram 12 netos. A quem apresento, e à restante família, as minhas sentidas condolências. Condolências, que são extensivas aos seus camaradas do Exército e da Força Aérea, onde serviu durante 34 anos e, sobretudo, à grande família pára quedista, no seio da qual se engrandeceu e, também, a tornou grande. E onde repousava o seu coração. E como durante no seu tempo de serviço activo, os pára-quedistas faziam parte da Força Aérea, onde nasceram (e de onde não deviam ter saído) e em que, pela primeira vez, constituíram uma unidade que vencia o comando de um oficial general. Foi ele, esse oficial e oriundo daqueles cujo lema reza, “Que nunca por vencidos se conheçam”. Não é, pois, por acaso, que celebramos estas exéquias na Igreja da Força Aérea, aquela que também, no seio das Forças Armadas já ostenta as maiores tradições e pergaminhos. E não posso ainda deixar de constatar, que durante toda a sua reforma, o General Almendra continuou assíduo frequentador das instalações e actividades da Associação da Força Aérea Portuguesa (onde chegou a ser presidente da Direcção, em 1994), onde o seu gosto pelo bridge ficou lendário, sendo um “contador de histórias”, emérito. Vou deixar o falar sobre a carreira e outras virtudes do General Almendra, para os seus camaradas, amigos e familiares, que a isso se disponham, pois o seu conhecimento melhor os habilita para tal, mas não posso, nem quero, deixar de dizer ainda o seguinte: Heitor Almendra foi um militar da velha guarda, que teve uma formação militar severa e foi um dos primeiros militares pára-quedistas portugueses – uma tropa de elite a que não estávamos habituados, em boa hora criados pelo ministro Santos Costa e subsecretário Kaúlza de Arriaga – ao oferecer-se para frequentar o 8º Curso, em 1959, logo se embebendo de outro dos seus lemas, “instrução dura, combate fácil”. Veio a ter o brevet de pára-quedista militar nº 479. E foi nos pára-quedistas que fez praticamente toda a sua carreira militar, até ao seu cúmulo, representado pela criação do Corpo de Tropas Pára quedistas e da Brigada Ligeira Pára-quedista, em 1985 (tendo contado com a preciosa ajuda do General Lemos Ferreira, com o qual se entendeu bem), em que também liderou toda a transformação e actualização das tropas pára quedistas, da guerra subversiva e de guerrilha, para as novas ameaças de carácter convencional, no âmbito da OTAN. A sua primeira comissão de serviço, fê-la na longínqua terra do sândalo, o Timor português, em 1956, território que, para quem fez a antiga instrução primária, sabia situar-se na Oceânia, e possuir a montanha mais alta de Portugal, com o seu Pico Ramelau, com 2963 metros de altitude… Mas logo, ainda jovem, foi chamado a terçar armas pela sua Pátria, quando foi um dos primeiros a acorrer à defesa de Angola, aquando do sangrento e traiçoeiro, ataque ocorrido no início de 1961, que não andou longe de se poder equiparar a um genocídio. Esta foi a sua segunda missão em terras ultramarinas, a que se seguiram, uma comissão em Moçambique, em 1963/65; na Guiné em 1976/78; Angola em 1969/73; e, novamente Angola, em 1974/75, quando assistiu comovido ao triste e pouco digno, arriar da Bandeira das Quinas, na cidade de Luanda, cidade que tinha sido fundada pelo Capitão português Paulo Dias de Novais, em 25 de Janeiro de 1576. 2 3 Almendra foi sempre e, sobretudo, um operacional Pode assim dizer-se que o General Almendra combateu durante quase toda a sua vida militar e dizem que foi um grande combatente e um grande líder e comandante, cujos subordinados seguiam com um simples gesto (apesar de não ser simpático, tão pouco afável ou meigo). Também por isso, presidiu à comissão executiva que levou a cabo o XIII encontro nacional dos combatentes do ultramar, em 2006, junto ao respectivo monumento, em Pedrouços. E a Nação dos Portugueses tem ainda a agradecer-lhe a sua importante contribuição, para que pudesse continuar a ser constituída por homens livres, quando ajudou a fazer gorar a tentativa de implantação, ilegal e ilegítima de um “Estado Totalitário”, entre nós, nos idos de 1975. Na eterna luta entre o Bem e o Mal, Heitor Almendra esteve sempre do lado do Bem. Contei-lhe muitas condecorações atribuídas, algumas “com palma”, daquelas que não se ganham a arrumar papéis numa secretária, e entre elas ressalta a de oficial da mui antiga Ordem Militar da Torre Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (o que, tenho reparado, ser algo recorrente, entre combatentes oriundos de Trás – os - Montes). E parece não haver dúvidas de que aquele, que agora deu a vida ao Criador, teve o Valor, a Lealdade e o Mérito, para a ostentar. E só pelo facto de a ostentar, devia ser conhecido e honrado, por todos os bons portugueses mas, como se sabe, não é isso que é uso acontecer. Pessoalmente tenho uma dívida de gratidão para com ele: quando, patrioticamente, me defendeu em tribunal, contra a “difamação de um difamador”, que em tempos de guerra, se tinha colocado do lado de quem nos emboscava as tropas e maltratava as populações. Obrigado meu general. Heitor Almendra teve uma vida cheia e foi uma figura incontornável na História militar do século XX, tendo elevado os “Páras” a um nível nunca antes igualado; por tudo o que ficou dito, e não só, a sua partida representa uma dura baixa ao efectivo, difícil de ser ultrapassada. O País perdeu um dos seus mais afamados guerreiros. Paz à sua alma. Perdemos o Almendra, gritaram por aí. Mas como diria o poeta, nele a morte não terá Poder, pois a memória será mais forte que ela. 4 Que a Virgem Santíssima, Nossa Mãe e, também Ela, Nossa Senhora do Ar, certamente compadecida de qualquer erro ou pecado, eventualmente cometido neste vale de lágrimas, receba o General Heitor Almendra, em Sua Glória e lhe proporcione o eterno descanso (num leito forrado com a seda de um pára-quedas). João José Brandão Ferreira Oficial Piloto Aviador (Ref.)

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