PENSAMENTOS ABERTOS E LVRES - 233

Desculpem lá o mau jeito…8 de Setembro de 1936 Mesmo correndo o risco de ser mal interpretado, fique claro tenho agora e sempre tive o maior respeito pelos Praças, especialmente os paraquedistas que melhor conheci, mas de muitas outras especialidades e ramos das Forças Armadas, com os quais trabalhei. Merecem-me, repito, o maior respeito. Aqui vai. Que uma Associação de Praças entenda comemorar um “Dia Nacional das Praças” - no dia 8 de Setembro - é com os associados, nada tenho a dizer. Que Associações de Sargentos ou de Oficiais comemorem os dias que bem entenderem, nada a dizer, é com os associados. Institucionalmente, o Ministério da Defesa Nacional, as Forças Armadas Portuguesas a Marinha Portuguesa, o Exército Português e a Força Aérea Portuguesa, comemorarem um Dia Nacional da Praça ou dos Sargentos ou dos Oficiais, aqui, confesso que tenho muitas dúvidas da sua utilidade. É mais uma ocasião para se falar destas categorias profissionais? Destina-se a esvaziar o carácter reivindicativo que as comemorações teriam se fossem exclusivas das associações? Pois, talvez tenha interesse, não sei mesmo, se governos e chefias militares assim o desejam, que se façam então os tais "dias" para encher as redes sociais de belas fotos e declarações! Agora, hoje, 8 de Setembro, mas em 1936 – passam 90 anos – o que se passou mesmo? O que se está a comemorar? Será isto um exemplo para os Praças de hoje? Cada um tire as conclusões que quiser. Tenho aqui as versões de todas as partes envolvidas, do governo de então aos comunistas revoltosos e ao Partido Comunista que não os apoiou...mas compreendeu... Boa leitura! 8 de Setembro de 1936, menos de dois meses após o início da guerra civil em Espanha, militares portugueses, marinheiros, ligados à Organização Revolucionária da Armada (ORA), de orientação comunista, revoltaram-se, tomaram conta de dois navios de guerra – o Aviso Afonso de Albuquerque e o Contratorpedeiro Dão – e tentaram sair do Tejo. O Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, deu a ordem pela cadeia de comando, as peças de artilharia Krupp 10,5cm e 15cm dos Fortes de Almada e do Alto do Duque, respectivamente, abriram fogo, causaram morte e destruição a bordo, travaram a rebelião. Os marinheiros envolvidos foram presos, condenados a pesadas penas e deportados. Ainda hoje permanece dúvida sobre os reais objectivos dos revoltosos, sendo certo que a Guerra Civil de Espanha e o ambiente ideologicamente extremado que então se vivia no país vizinho, teve influência determinante na acção. Terá sido mesmo o “gatilho” que a desencadeou, um dos navios tinha aliás regressado pouco tempo antes de Alicante onde houve contacto directo da tripulação com a situação política em Espanha. O governo sempre considerou tratar-se de uma tentativa de fuga para Espanha a fim de reforçar uma facção no conflito em curso, a República; os envolvidos pelo contrário asseguraram sempre que a revolta pretendia contestar o regime político português e a repressão na Armada, sendo o destino Espanha considerado uma última possibilidade para procurar abrigo em caso de necessidade. A intenção seria sair a barra e ficar algures ao largo a desafiar o regime, esperando algum desenvolvimento em terra. Segundo a ORA, pretendia-se «…fazer um ultimato ao governo de Salazar para exigir a satisfação de direitos, o fim das perseguições e a libertação dos presos, tendo ao seu dispor o potencial de fogo próprio dos navios, que entretanto deveriam ser postos a salvo fora da barra…»(Domingos Abrantes, in “O Militante”, Setembro/Outubro 2006). Se antes de 25 de Abril de 1974 nunca permaneceram dúvidas nos meios oficiais sobre a primeira versão, depois do golpe militar que instaurou a democracia, a generalidade das declarações de sobreviventes e dos sectores comunistas ligados à revolta são para muitos a verdade. Os marinheiros revoltosos têm hoje um monumento em sua honra na cidade de Almada, inaugurado em 2009, e junto à Base Naval de Lisboa, no Alfeite, há uma “Rua 8 de Setembro, Revolta dos Marinheiros, 1936”. O Partido Comunista Português sempre mostrou compreensão pela revolta, mas não a apoiou. Discordou da acção dos seus militantes, considerou-a sempre uma acção localizada sem possibilidade de sucesso. O PCP não nega que a situação em Espanha «…tenha sido «o detonador que fez saltar o “barril de pólvora”… … Mas foi a repressão (prisões e expulsões da Armada) exercida sobre 17 marinheiros da guarnição do «Afonso de Albuquerque» que haviam manifestado a sua simpatia e solidariedade às forças patrióticas espanholas, quando Salazar, já iniciada a guerra civil, a pretexto de proteger emigrantes portugueses, enviou para Espanha aquele navio, que fez radicalizar o descontentamento e as preocupações com as crescentes medidas repressivas. Meses antes tinham sido presos mais de 30 marinheiros, incluindo entre eles toda a direcção da O.R.A.» (Domingos Abrantes, in “O Militante”, Setembro/Outubro 2006) A “História do Exército Português, 1910-1945”, publicação oficial do ramo terrestre, lançada em 1995 sob a coordenação do General Ramires de Oliveira, relata apenas em duas linhas, mais esta acção militar naquele período conturbado: «Em 8 de Setembro de 1936, as batarias de costa impediram a saída do rio Tejo de dois navios de guerra, cujas guarnições rebeladas pretendiam juntar-se às forças navais do governo republicano espanhol». Várias publicações do Exército dedicadas à história da artilharia de costa, algumas até de carácter “reservado” à data da sua publicação referem a mesma justificação para a acção revolucionária. Várias publicações oficiais sobre património dedicadas às fortificações em apreço, sobretudo as relativas ao Forte do Alto do Duque que em termos arquitectónicos tem muito interesse – é a única fortificação do tipo austríaco existente na península Ibérica – todas fazem referência aos acontecimentos de 1936, no mesmo sentido. Finalmente a Portaria n.º 740-DL/2012 publicada Diário da República em 24 de dezembro de 2012 no âmbito da classificação do imóvel como Monumento de Interesse Público, também refere «…entrando em combate em 1936 para responder a fogo da artilharia dos navios portugueses rebeldes que tentaram sair do Tejo para apoiarem as forças republicanas espanholas durante a Guerra Civil de Espanha…» Curiosamente José Saramago (1922-2010), escritor comunista que viria a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998, no seu romance “O ano da morte de Ricardo Reis” (1984), aborda com algum detalhe este episódio. A descrição de Saramago, tem muito de real e pouco de ficção, referindo-se correctamente às unidades navais e terrestres envolvidas e terminando inclusive com o número correcto de marinheiros mortos. Se acção foi como descreve…não sabemos. Aqui fica uma transcrição parcial da autoria do capitão A. Pires na revista “Bombardeiro” de Maio de 1989: «…Não eram os Navios de Guerra que estavam a bombardear a cidade, era o Forte de Almada que disparava contra eles… O Afonso de Albuquerque navega devagar, provavelmente foi atingido em algum órgão vital, a casa das caldeiras, o leme. O Forte de Almada continua a disparar, parece o Afonso de Albuquerque que respondeu, mas não há certeza. Deste lado da Cidade começaram a disparar tiros, mais violentos, mais espaçados. É o Forte do Alto do Duque, diz alguém, estão perdidos, já não vão poder sair. E é neste momento que outro barco começa a navegar, um contratorpedeiro, o Dão, só pode ser ele, procurando ocultar-se no fumo das suas próprias chaminés e encostando-se à margem sul para escapar ao fogo do Forte de Almada, mas, se deste escapa, não foge ao Alto do Duque, as granadas rebentam na água, contra o talude, estas são de enquadramento, as próximas atingem o barco, o impacto é directo, já sobre no Dão a bandeira branca, rendição, mas o bombardeamento continua, o navio vai adornado, então são mostrados sinais de maior dimensão, lençóis, sudários, mortalhas, é o fim, o Bartolomeu Dias nem chegará a largar a bóia. São nove horas, cem minutos passaram desde que isto principiou, a neblina da primeira manhã já se desvaneceu, o sol brilha desafogado, a esta hora devem andar a caçar marinheiros que se atiraram à água.” (…) Na hora da distribuição dos vespertinos, Ricardo Reis saiu para comprar o jornal. Percorreu rapidamente os títulos na página central dupla, outros títulos, ao fundo, em normando «Morreram doze marinheiros» e vinham os nomes, as idades…» No livro “A revolta dos marinheiros de 1936” de Gisela Santos Oliveira, editado pela Comissão de Homenagem à Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936”, patrocinada pela Câmara Municipal de Almada, o tema é abordado com muitos detalhes e documentação da época, mesmo entrevistas com alguns antigos revoltosos ainda vivos à data do trabalho (2009). Conclui a autora pela versão dos revoltosos. Sendo um documento histórico com muito interesse, com base em muita investigação, tem, no entanto, quanto a nós uma lacuna (que possivelmente a autora não conseguiu colmatar), não investiga também a versão do governo com igual profundidade. Franco Nogueira na sua obra “Salazar” (Volume III – 3.ª edição – 1986) relembra o episódio, conta mesmo que Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros e à data acumulando as funções de Ministro da Guerra, de férias em Santa Comba Dão, foi acordado por telefonema do Ministro da Marinha a relatar o sucedido às 5 horas da madrugada de dia 8 de Setembro, e que deu a ordem de “bombardear os navios até à rendição”. Além de muitos outros detalhes sobre a acção transcreve ainda parte de uma longa nota do Presidente do Conselho publicada nos jornais a 10 de Setembro da qual recuperamos parte «…Embora à custa do suor de todo o povo, com alegria e a clara consciência do dever se mandaram construir (os navios). Conscienciosamente os mandei pagar. Com a mesma imperturbável serenidade dei ordem para que fossem bombardeados até se renderem ou afundarem. A razão que se eleva acima de todos os sentimentos foi esta: os navios da Armada portuguesa podem ser metidos ao fundo; mas não podem içar outra bandeira que não seja a de Portugal. Desperdiçaram-se num momento economias de muitos meses, é certo: não podemos, porém, ficar presos de tais considerações quando o exige a honra da Nação…» Salazar enquadra depois estes acontecimentos nos apoios internacionais – nomeadamente no fornecimento de armamento – que ambos os campos em conflito procuravam por essa altura, um pouco por toda a Europa. Se acusavam o governo de favorecer o campo “Nacional” devido a alguma proximidade ideológica, este aproveitou os acontecimentos para mostrar, dentro e fora de Portugal, que o campo “Republicano” também procurava fortalecer o seu poderio militar. Do lado oposto, Álvaro Cunhal também terá abordado o assunto, assim refere Domingos Abrantes do PCP no artigo «1936 – Ano da Revolta dos Marinheiros», publicado em 2006 no “Militante”: «… Nos finais da Primavera de 1936, antes da sua partida para Espanha, o camarada Cunhal, em representação da direcção do Partido, realizou um encontro com os camaradas dirigentes da O.R.A… …No movimento democrático fervilhavam, por influência das vitórias antifascistas em França e Espanha, ideias de um golpe armado para derrubar o fascismo. Os camaradas consideravam estar em condições de desempenhar em tal caso importantíssimo papel tomando conta do “Afonso de Albuquerque” e de outros navios de guerra. Viam por isso com impaciência estar o governo a tomar medidas que ameaçavam a O.R.A. E o camarada Cunhal acrescentava que os dirigentes da O.R.A. “encaravam mesmo a possibilidade de, na parada da Marinha de Guerra que costumava realizar-se na baía de Cascais e à qual Salazar e membros do governo assistiam a bordo do “Afonso de Albuquerque”, tomarem conta do navio e prenderem Salazar, os ministros e acompanhantes. Tal operação – concluía o camarada Cunhal – incluída numa revolta de outras unidades militares poderia ser determinante. Mas, sendo isolada, apresentava-se cheia de justificadas dúvidas”. A revolta avançou mesmo, pelos vistos contra a opinião da direcção do partido, mas o que é certo é que «…no entanto o Partido sempre valorizou a determinação dos jovens marinheiros e o seu desejo de pôr fim à ditadura e ao longo dos anos prestou-lhes a devida e merecida homenagem, não esquecendo que sacrificaram as suas vidas em honra e glória pela causa da liberdade». Gisela Santos Oliveira, no “A Revolta dos Marinheiros de 1936” entrevista a Joaquim Teixeira (um dos marinheiros revoltosos) e alguns dados curiosos podem ser recolhidos. Não só a influência do ambiente em Espanha (de onde o Afonso Albuquerque tinha regressado) e dos contactos de muitos marinheiros portugueses com republicanos espanhóis; como uma intenção de fazer navegar os navios sublevados até Angra do Heroísmo para tentar libertar revolucionários aí presos; navegar para Espanha se as coisas corressem mal em Portugal e deixar lá os navios indo combater pelos Republicanos em terra; e ainda, e neste aspecto parece confirmar-se a afirmação de Salazar (sobre o ter sido içada bandeira estrangeira), quando Teixeira refere que um oficial detido a bordo lhe disse “Ó pá, manda-os arrear a bandeira”, o que ele recusou. É isto que se comemora hoje. Miguel Silva Machado, 8 de Setembro de 2026

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