PENSAMENTOS ABERTOS E LIVRES - 226
José Maria Ricciardi
Tolhido pela surpresa ao amanhecer com a notícia do falecimento de José Maria Ricciardi, sou invadido por um turbilhão de pensamentos — todos eles centrados na eterna dualidade entre a vida e a morte.
Durante muitos anos, foi para mim uma dessas personalidades que parecem distantes, quase inacessíveis ao cidadão comum. Porém, as vicissitudes da vida e o universo leonino acabaram por nos aproximar. Daquilo que começou como uma relação distante, por vezes até antagónica, fomos descobrindo afinidades no pensamento, no caráter e na forma resiliente de enfrentar os obstáculos.
Entre amizades e gostos em comum — como a ausência de horários para boas conversas — fomos construindo um espaço de diálogo que tanto acontecia ao amanhecer como pela madrugada dentro. Tivemos discussões intensas, momentos de franca discordância, mas também muitas risadas. Mesmo nos tempos mais recentes, nunca faltou a discrição que ambos sabíamos ser necessária.
Parte agora um cidadão que, no momento em que lhe foi vedada a possibilidade de exercer plenamente a sua competência e de “limpar” o que estava oculto, ainda assim contribuiu para valores maiores do País. A História saberá, no seu tempo, fazer justiça e compreender as circunstâncias que o levaram a agir como agiu.
Desaparece também um amigo e um apaixonado pelo Sporting, alguém que muito deu ao Clube. Por vezes incompreendido, terá também, em determinados momentos, servido de escudo a muitas das fragilidades do dirigismo leonino ao longo dos anos.
Era alguém com a rara capacidade de transformar divergência em aproximação, de gerar entendimento quando estavam em causa interesses superiores ao individualismo.
Como qualquer ser humano, não foi isento de falhas — foi enganado ou deixou-se enganar em alguns momentos. Mas isso apenas o torna mais humano, mais próximo, mais real.
Fica a memória, o respeito e a amizade.
Estamos juntos, Zé Maria.
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