PENSAMENTOS ABERTOS E LIVRES - 222 (MADIBA - CITANDO JOSÉ ALBERTO PEREIRA)
Madiba
Na passada terça-feira, 11 de fevereiro, passaram 36 anos sobre a libertação
de Nelson Mandela da prisão de Robben Island, uma das mais duras ede
todo o sistema prisional sul-africano durante o apartheid. Nesta prisão,
passou Nelson Mandela 27 anos em cativeiro, sujeito à tortura, a trabalhos
forçados, ao frio, à chuva e ao vento, às sevícias e taras dos guardas, todos
brancos. Ele, um advogado de direitos humanos da província do Cabo,
formado em Joanesburgo onde iniciou a sua carreira, fundador a presidente
do Congresso Nacional Africano (ANC), com passagem por diversas prisões
sul-africanas sempre por delito político, 27 anos ali penou pelo crime de
defender o que pensava, a igualdade entre os Homens, independentemente
da sua raça, religião ou opinião.
O apartheid foi um dos regimes segragacionistas mais hediondos da História
da Humanidade. Palavra retidada do dialeto africander, “apartheid” significa
separação. Nenhuma palavra poderia descrever melhor a segregação
humana, a privação de direitos, a ausência de liberdade, a devassa da vida
privada, a eliminação dos opositores (como Peter Gabriel tão bem descreve
na canção “Biko”). A discriminação continua, no mundo de hoje, a ser uma
das mais vis armas utilizadas por políticos autocratas. Vejam-se, por
exemplo, a perseguição do povo Rohingya em Myanmar, ou dos russófonos
nos países bálticos e na Ucrânia ou, mais recentemente, as investidas do ICE
contra os imigrantes em Minneapolis.
A libertação de Nelson Mandela foi o tiro de partida para uma profunda
transformação na sociedade sul-africana. Três anos após a sua libertação,
Mandela é eleito como o primeiro presidente negro da África do Sul. Inicia
então um movimento praticamente sem precedentes na história da política
mundial. Num país enorme, superpovoado e com uma larga maioria de
pobres, habituados a serem discriminados e perseguidos, Mandela aposta
claramente no perdão e na reconciliação nacional.
Curiosamente, esta aposta usa o rugby e a equipa nacional, os Springboks,
uma equipa odiada por ser integralmente branca, como forma de atrair os
negros para esta nova caminhada. O campeonato mundial de 1995 foi na
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África do Sul e, na final, os Springboks venceram os neozelandeses All
Blacks. Foi o delírio e ficou para a história uma foto do Presidente, um negro,
ao lado do capitão da seleção nacional, François Peneaar, um afrikaner. Foi
o mote para a aceitação deste processo de reconciliação nacional.
Foi tudo rosas neste processo? Claro que não. A esposa de Mandela,
Winnie, tomou caminhos diferentes do líder e acabaram divorciados. Mais
tarde Nelson conheceu Graça, viúva do presidente moçambicano Samora
Machel, com quem viveu até à sua morte, em dezembro de 2013. No
entanto, o seu sonho de uma nação reconciliada consigo mesma, uma
“Rainbow Nation” como lhe chamava, logrou vencer. Hoje, a África do Sul é
a maior economia do continente africano, é membro dos BRICS (o “S” é de
South Africa) e uma voz de peso no xadrez político e económico mundial.
A admiração do povo sul-africano por Nelson Mandela é inquestionável.
Chamam-lhe “Madiba”, que na sua língua natal (xhosa) significa “Pai”. Para
além dos diversos ficos do processo de reconciliação nacional, Mandela
pugnou sempre por melhorar as condições de vida dos maios
desfavorecidos, maioritariamente os negros dos subúrbios da grandes
cidades. A dignificação da condição humana foi sempre um dos seus pilares
na ação concretas, algo em que só os homens bons e de bons costumes
sabem preseverar.
O tema da reconciliação em política está ao alcance de poucos iluminados.
Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Jacinda Ardern, Franklin D. Roosevelt,
Charles de Gaulle e poucos mais. Em Portugal, convictamente arriscaria
Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, embora seja tão-só a minha opinião
pessoal e não valha nada mais que isso mesmo. Unificar é, sobretudo, dar
força aos que nos une e desvalorizar o que nos separa, exatamente o
contrário do que fazemos hoje em comunicação, em sociedade e em
política.
Somos hoje, a nível global, comandados por um algoritmo que premeia os
“hates” e desvaloriza os “likes”. Este algoritmo condiciona os destaques nas
redes sociais, dando mais visibilidade aos posts que potenciam mais
“hates”. Com mais visualizações, estes posts tornam-se frequentemente
virais, chamando a atenção de empresas, comunicação sociais e políticos.
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Com base neste racional, os briefings da comunicação seguem direta ou
indiretamente a linha do algoritmo e valorizam os conteúdos potenciadores
de “hates”. Ora como sabemos, os conteúdos da comunicação fazem mais
vezes a agenda dos políticos que o inverso, até em termos de timing
(telejornal das oito, etc). Resumindo, temos hoje uma estratégia política que
conduz as nossas vidas e se baseia na valorização do ódio dada por um
qualquer algoritmo subjacente a uma qualquer rede social, ou seja, somos
indiretamente comandados por “devices” que desconhecemos, assim como
desconhecemos quem os produz ou quem os comanda. A isto chamamos
democracia, por oposição a ditadura?
Os centros de decisão estão cada vez mais longe das pessoas porque a sua
preocupação não são as pessoas, mas sim a gestão da sua imagem e
posição. Se assim não fosse, porque não foram adiadas uma eleições em
que à partida todos sabíamos quem iria ganhar, num momento em que os
portugueses sofriam horrivelmente os efeitos de uma das piores séries de
intempéries de sempre. Qual era o problema? The show must go on? Para
mim tudo isto representou uma grande falta de respeito pelos portugueses
que sofriam, uma insensibilidade completa pelo seu sofrimento. O nível de
abstenção assim o demonstrou e o futuro não se afigura risonho. É preciso
governar para as pessoas, não apesar das pessoas.
Depois temos a palhaçada dos ministros. Ai a Ministra da Administração
Interna não sabe falar em público? Fora com ela! Quem já chefiou equipas
sabe bem que o sucesso vem da delegação de competências, que esta só
funciona com autonomia e confiança. Mas como ter confiança numa
entidade que deveria proteger os portugueses nestas situações, mas cuja
organização é mais intrincada que o emaranhado de linhas do metro de
Londres? Alguém espera que aquilo alguma vez funcione? É que está assim
há décadas. Benditas Forças Armadas, que se marimbaram nos protocolos
e avançaram no terreno.
E que dizer da Ministra da Saúde? Uma vergonha! Um enfermeiro a gerir
energias renováveis e uma farmacêutica a gerir médicos? Como pode ser?
Tudo estava tão bem até determinado ano/mês/dia/hora e, de repente,
vindo do nada, tudo ficou um caos, uma vergonha. Estas afirmações, ditas
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com a maior seriedade do mundo e com um inabalável compromisso com a
verdade, têm subjacentes algumas questões pertinentes e importantes: O
que é um administrador hospitalar? Qual é a sua função numa unidade
desta natureza e dimensão? Quais os efeitos da sua ação nos níveis de
prontidão destas unidades? E na qualidade do serviço prestado?
A questão dos gestores públicos de carreira, nas quais se incuem quer a
Proteção Civil quer os administradores hospitalares, é um dos maiores
constrangimentos à melhoria das performances nestas áreas, com maior
valor para os seus “clientes”. Sai um ministro, vem outro, volta a sair, volta
a vir outro, nada muda. Onde está o problema? Quando há problemas com
algum comandante ou administrador hospitalar, transfere-se o efetivo para
outro local e tudo fica bem (até ver …). O mal está feito e é só varrer para
debaixo do tapete para que todos esqueçam. Morreram pessoas? O Estado
perdeu dinheiro? Isso não interessa nada, há muito para gastar. Ninguém
me vai chatear a cabeça. Sou ou não sou intocável?
Todas estas ações, esta impunidade, são reforçadas pela estratégia política
baseada na valorização do ódio e do antagonismo de que acima falei.
Vivemos este antagonismo de forma intensa, sem entendermos que ele é
apenas uma ferramenta numa estratégia de comunicação mais hardcore.
Regressemos então a Nelson Mandela e à sua libertação de Robben Island
para, pelas suas próprias palavras, lermos quais era os seus pensamentos
naquele momento: “Quando eu saía em direção ao portão que me levaria à
liberdade, eu sabia que, se não deixasse a minha amargura e o meu ódio
para trás, eu iria ficar na prisão”.
José Alberto Pereira
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