PENSAMENTOS ABERTOS E LIVRES - 219 (CITANDO HÉLDER OLIVEIRA SOBRE ANDRÉ VENTURA)
André Ventura - Um caminho para a corrupção moral?
Quando se avaliam as afirmações não verdadeiras e mesmo caluniosas de André Ventura sobre os seus adversários políticos, as minorias étnicas e alguns problemas que Portugal defrontará nas áreas do crescimento económico e dos índices de corrupção e insegurança, somos tentados a dizer que o dirigente político, agora alinhado com o que podemos chamar a extrema-direita, se aproxima perigosamente de ser ou vir a ser um corrupto moral, sem termos nenhuma indicação, até ao momento, de que seja um corrupto material como acusa adrede, muitas vezes sem fundamento sólido, uns e outros. Se não, vejamos:
- Começou por professar valores que se situam próximo do que chamamos o Estado Social, não longe da social-democracia e pela defesa das minorias étnicas, como se encontra descrito nos documentos com que concorreu aos seus graus académicos e, quando verificou que tais valores não lhe conferiam qualquer visibilidade política, optou para, sem qualquer justificação aparente, afirmar como definidores do seu perfil político valores opostos àqueles por que tinha, aparentemente, optado passando a promover a inspiração do ódio e o desprezo pelas minorias étnicas, sexuais e sociais;
- Afirma-se capaz de acabar com a insegurança aparentemente prevalecente, esquecendo, propositadamente ou não, que, segundo indicadores internacionais geralmente aceites, Portugal é um dos mais seguros países do Mundo. Para dar um exemplo indiscutível pense-se como decorreram as Jornadas Mundiais da Juventude nas quais chegaram a estar reunidas cerca de um milhão e meio de pessoas, junto ao Rio Trancão, e todos os que lá estivemos, como eu mesmo, sentimo-nos confortáveis, não tendo sido detetado qualquer incidente significativo, designadamente, por parte das centenas de polícias presentes, impecáveis na forma como se relacionaram com os peregrinos;
- Dá a entender que Portugal é um dos mais corruptos países do mundo, e ao, por método, falar mal do País, que não tem índices de corrupção superiores aos de outros Países europeus, põe a maioria dos nossos compatriotas a pensar que assim é, minando a autoestima dos portugueses que devem ter orgulho na forma como a generalidade de vozes estrangeiras de todas classes sociais se referem a Portugal, objetivando a sua admiração pelo nosso País, preferindo-o turisticamente e desejando-o para lugar de trabalho e residência;
- Afirma sistematicamente o nosso atraso fazendo esquecer como evoluímos extraordinariamente desde a instauração da democracia no PIB per capita, na estrutura da nossa economia, nos índices sanitários, nos de instrução e cultura. Só alguns exemplos:
. O PIB per capita português, em USD, cresceu de 2 127 USD, em 1974, para 29 292 USD, em 2024;
. Portugal regista hoje o maior número de trabalhadores ativos de sempre (cerca de cinco milhões e trezentos mil) e entre 2015 e 2024, na sequência e apesar das políticas desastrosas impostas pela “Troika”, criou cerca de um milhão de postos de trabalho, desde setores trabalho-intensivos até setores altamente sofisticados, tendo de recorrer a cerca de 600 000 imigrantes de baixa, média e alta formação profissional, para manter vivo o crescimento continuado da sua economia, interrompido, pela crise económica internacional que afetou a generalidade das economias em 2008, pelas políticas insensatas da “Troyka” e pelas consequências imprevistas da “COVID”;
. Dos trabalhadores ativos, porventura, cerca de 30% possuem um grau de ensino superior o que os pode tornar, designadamente, em processos de transição, particularmente flexíveis e produtivos;
- Portugal tem ocupado, nos últimos anos, o sexto ou sétimo lugar, entre os vinte e sete países comunitários, na receção ao IDE-Investimento Direto Estrangeiro, desmentindo a ideia de que não existem no País condições para estimular o investimento privado;
. A mortalidade infantil baixou de 39 por mil para, praticamente, 2 por mil, graças, designadamente, à evolução extraordinária que se verificou na distribuição de energia elétrica, no saneamento básico (abastecimento de água, esgotos e recolha de lixo, sistemas que beneficiavam menos de metade da população portuguesa em 1974) e ao papel decisivo do Serviço Nacional de Saúde que tornou o acesso da generalidade dos cidadãos aos cuidados de saúde tendencialmente gratuitos, pese, embora, a persistência de problemas que a Comunicação Social tende a sobrevalorizar, esquecendo que, por exemplo, a esperança de vida desde o “25 de Abril” subiu de 68,2 anos para 82,7, tornando a população mais envelhecida e, por isso, mais sujeita a ser afetada por problemas de fragilidade física e mental;
. A taxa de analfabetismo era, em 1974, de 25 %, e, em 2024, inferior a 3%;
. Em 1974 havia cerca de 50 000 licenciados. Em 2024 este número ascendia a, aproximadamente, 1 800 000;
. Hoje 48% dos jovens portugueses com 20 anos estão no ensino superior, quando a média europeia é 41%. A evolução notável que pode ser observada no nosso ensino infantil, primário, secundário e universitário deve-se também à paixão que homens como Guterres, Mariano Gago, Marçal Grilo e tantos outros, nutriram, em tempo de democracia, pela educação;
- Fazendo uso abusivo da evolução tecnológica e das redes sociais, o partido comandado por André Ventura, segundo uma empresa israelita especializada nesta área, cria falsos humanos através da Inteligência Artificial, “chatbots”, como “seguidores” das suas redes, inventando uma audição mirífica e convencendo os incautos de uma influência que não tem, mas que torna credível uma realidade inexistente com clara influência na forma como se aproxima do poder não olhando a meios. Quem é autor de uma mentira, “fake-newss”, como esta, para aceder ao poder, quando o poder estiver à sua disposição, a amoralidade ou a imoralidade que presidem à sua atividade não terá qualquer limitação em aplicar aos seus compatriotas tudo o que é do seu interesse político ou pessoal. Coitado do mentiroso, mente uma vez, mente sempre...;
- André Ventura, pensando que podia retirar qualquer vantagem da situação trágica criada pelas dificuldades climáticas que afetaram o País, propôs o adiamento do ato eleitoral, invocando as limitações de deslocação até ao local da votação ou a de as pessoas estarem preocupadas com outras coisas que não fossem as consequências desastrosas da fúria dos elementos. Das duas uma: ou AV desconhecia a lei que tornava muito difícil tal adiamento e isso é uma péssima amostra da preparação de alguém que está a concorrer para assumir a Presidência do País, apesar de ser um jurista com boa preparação ou então pensou que ao propor algo impossível era uma boa ocasião para ganhar mais tempo de antena nos meios de comunicação e seguir a máxima, “falem bem ou mal de mim, interessa é que falem”.
Em discussão acesa entre André Ventura e o Ministro da Economia António Costa Silva na AR, a querela terminou com o Ministro a dizer que “O Senhor Deputado não tem uma única ideia sobre economia” ao que, de acordo com os documentos a que tive acesso, Ventura terá embatucado. Talvez seja por nada saber sobre economia ou pelo profundo impulso demagógico que o alimenta que, nas suas constantes proclamações populistas Ventura promete, simultaneamente, baixar impostos e aumentar pensões, ficando nós à espera de saber como vai resolver esta difícil equação.
Com a sua indiscutível capacidade retórica para incutir nos seus ouvintes conceitos duvidosos, Ventura usa agora essa veia afirmando poder combater o socialismo, tentando ignorar que é este o nome que a social-democracia do Norte da Europa assume na Europa do Sul e, ao mesmo tempo, ensaiando a oportunidade para que os seus ouvintes confundam este tipo de socialismo e social-democracia com o falso socialismo concentracionário que implodiu na União Soviética.
Tal retórica não consegue fazer-nos esquecer que foi graças ao Estado Social inspirado pelos idealistas da social-democracia e do socialismo que foram concretizadas conquistas civilizacionais como a semana de cinco dias e o dia de trabalho de oito horas, o direito dos trabalhadores às reformas e ao gozo de férias, à imposição do ordenado mínimo, aos subsídios na doença e nas incapacidades, à igualdade entre homens e mulheres, entre outros direitos hoje considerados inalienáveis. Será que AV quer acabar com estes direitos?
Poder-se-ia fazer melhor? Claro. Se houvesse a sabedoria, o conhecimento e as circunstâncias mais propícias, nunca os judeus seriam expulsos no século XV, indo, com o seu conhecimento e iniciativa, desenvolver o Reino dos Países Baixos, os Jesuítas seriam tratados de modo diferente, preservando valores essenciais na expansão do ensino, os Republicanos, ter-se-iam entendido e aplicado as suas políticas progressistas, preservando a tranquilidade pública e o equilíbrio político, Salazar teria sabido deixar o poder no tempo próprio e entendido, de facto, os “Ventos da História” que tornaram imparáveis a descolonização e Marcelo Caetano, teria optado pelas reformas, a partir de cima, iniciar o caminho para a democracia e entabular conversações com os movimentos de libertação das Colónias, evitando que a Revolução se organizasse e rompesse a partir de baixo.
Quando Ventura critica, centrando-se na espuma dos dias, a situação do País, socorrendo-se da mais rasteira demagogia, aspetos menos conseguidos da nossa vida política, económica e social, sente-se, pelo tom que usa, que não tem alternativa consistente às políticas prevalecentes, faltando-lhe sabedoria, profundidade, conhecimento, desprezando as elites possuidoras desses pergaminhos, sem as quais o País não teria progredido nem progredirá. O discurso do ódio e da inveja não dá “novos mundos ao mundo”.
André Ventura manifesta, em diversas ocasiões, a sua admiração e mesmo algum proselitismo em relação a Donald Trump levando o seu entusiasmo ao ponto de tentar assistir ao seu ato de posse, em Janeiro de 2024, no que, aparentemente, foi ignorado por Trump. Tenta agora, quando Seguro recolhe largos apoios de figuras de topo das nossas elites, opor o povo, o seu povo, às elites. Elites que Trump ataca ao mesmo tempo que favorece as elites multimilionárias a quem, impudentemente, baixa os impostos. Só por curiosidade que vale lembrar a AV para ter a consciência sobre com quem se pode comparar, dizer que, em Portugal, quem primeiro terá usado esse truque populista de atacar as elites para ascender ao poder, foi Bruno de Carvalho. Veja-se como falhou rotundamente como dirigente e como o seu delírio populista o levou aos “reality-shows”. Mais, Ventura ataca as elites porque não as tem do seu lado. “Estão verdes, não prestam”, diz a raposa...Entretanto, Trump:
- Começou por, através do movimento MAGA (Make America Great Again), das “fake news”, das verdades alternativas, fazer crer , designadamente, aos americanos, que a nação mais poderosa, mais rica e mais influente do Mundo, seguidora dos valores democráticos e dos “checks and balances” tinha deixado de ser grande, e resolveu iniciar um caminho de aparente afirmação do poderio americano que, com a quase destruição da NATO, o enfraquecimento deliberado da ONU e das suas Agências, das Instituições de Bretton Woods (v.g.Banco Mundial, FMI), a utilização das tarifas como arma de arremesso e as politicas que tendem a desestruturar as cadeias de distribuição, o ataque à independência da Reserva Federal, conduzirá, diria, inevitavelmente, ao declínio americano. Os primeiros sinais desse declínio começam a ser visíveis: após pouco mais de um ano de Governo, Trump está no mais baixo índice de popularidade, em comparação com os anteriores Presidentes do EUA. Entretanto, os aliados dos EUA procuram alternativas à América, agora brilhantemente estimulados pelo Primeiro Ministro do Canadá, um homem extraordinariamente inteligente e com uma experiência profissional de qualidade indiscutível, de que se destaca ter sido Governador de dois Bancos Centrais: do Canadá e do Reino Unido.
- Afirmou, de forma vergonhosa e mentirosa, que ganhou as eleições que elegeram Joe Biden, em 2020, incitando os seus apoiantes a invadirem o Capitólio, invasão que provocou enormes danos materiais e esteve na origem de cinco mortos de servidores públicos que tentaram conter os estragos. Um dos primeiros atos de Donald Trump, depois de tomar posse em 2025, foi perdoar aos criminosos que participaram ativamente no assalto;
- Retirou fundos às Universidades de referência dos Estados Unidos onde têm lugar notáveis investigações de caracter científico, responsáveis pelos progressos que nessa área as referidas Universidades têm conduzido, tornando, de facto, poderosos os EUA;
- Retira a segurança a que têm direito alguns servidores do Estado Americano (vg Jonh Bolton, Secretário de Estado e James Comey, Diretor do FBI ) com base em simples discordâncias de opinião que estes mantêm com o Presidente dos EUA, pondo, objetivamente, em risco as suas vidas;
- Dirige-se ao primeiro-ministro da Noruega afirmando, quase como criança grande, que, como não lhe concederam o Prémio Nobel da Paz, não tomará nenhuma iniciativa para impedir a guerra e aceita despudoradamente, como prémio, o prémio atribuído à sua real vencedora;
- Afirma, numa atitude de desprezo inqualificável pelo direito internacional aceite pela generalidade das nações, que o Canadá vai ser o quinquagésimo primeiro Estado dos EUA, o Canal do Panamá, vai tornar a ser americano, ameaçando a Groenlândia de ser retirada, pela ameaça ou pela força, à soberania da Dinamarca;
- Toma decisões inomináveis que visam o seu enriquecimento pessoal e familiar, comportamentos impensáveis em qualquer país com democracia madura;
- Grande parte das ações de caracter político-económico, da iniciativa de Trump, serão conduzidas não para resolver qualquer assunto de interesse nacional, mas para evitar que a opinião pública siga com atenção as investigações sobre os crimes de pedofilia que terão ocorrido no caso Epstein, que se terá suicidado em circunstâncias pouco claras na prisão em que estava detido;
- Recorre a uma instituição como o ICE, a que são atribuídos poderes constitucionalmente duvidosos, para destruir famílias de imigrantes há longo tempo residentes nos EUA, promovendo a sua extradição e não hesitando em usar irresponsavelmente crianças, filhos dos referidos imigrantes, que chegam a ser detidas contra todos os princípios do Estado de Direito;
- Ameaça e pune escritórios de advogados que defendem legitimamente pessoas singulares ou coletivas que não sejam da sua simpatia;
Dever-se-á reconhecer que a eficácia das mensagens e ações da autoria de André Ventura e Trump se deve também a erros pouco aceitáveis cometidos por Governos democraticamente eleitos em que a tentativa de algumas minorias sobrevalorizarem os seus valores e poderes não terá deixado de ter influência.
Independentemente destes erros que não têm a dimensão que Ventura e Trump lhe querem atribuir, ficamos perplexos e perguntamo-nos como é possível, depois da difícil vitória contra os comportamentos inomináveis do nazi-fascismo, em 1945, dos progressos, sem qualquer precedente, da economia mundial desde essa data, da evolução dos Direitos do Homem, da razoável estabilidade do que podemos chamar o direito internacional, progressos que não deixarão de estar na base da fragorosa implosão da União Soviética, como é possível, dizia, assistir à atuação de tais protagonistas e não deixar de fazer, no final deste texto, a pergunta que, aparentemente, se impõe: estará André Ventura a trilhar o caminho para a corrupção moral ?
Janeiro/Fevereiro de 2026
Hélder de Oliveira
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