PENSAMENTOS ABERTOS E LIVRES - 214 (CRITICAS A PAULO RIBEIRO)
Secretário de Estado da Administração Interna criticado
Eram 17h11 do dia 28 de janeiro quando chegou às caixas de
email dos militantes do PSD de Setúbal uma mensagem nova. No
rescaldo do temporal, por volta da hora a que Luís Montenegro
falava na sede da Autoridade Nacional da Proteção Civil ao lado de
Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, a
mensagem era assinada pelo secretário de Estado Adjunto e da
Administração Interna. Mas o seu conteúdo não tinha nada a ver
com a tempestade Kristin: é que o governante, Paulo Ribeiro, é
também presidente daquela distrital do PSD — e queria anunciar
a sua recandidatura.
No email, a que o Observador teve acesso, o governante e dirigente
distrital do PSD lembra que as eleições para os órgãos locais do
partido foram marcadas para dia 28 de fevereiro, daí a um mês. E
explica que quer comunicar que é “recandidato à Comissão
Política Distrital do PSD de Setúbal”, assumindo a recandidatura
com “grande comprometimento” e foco principal no próximo
desafio eleitoral: a preparação das eleições autárquicas de 2029.
Venha fazer Votorologia com o Observador: simule o
resultado da 2.ª volta das Presidenciais
Ora o email, enviado naquele timing e por um responsável da área
da Administração Interna, caiu mal junto de vários militantes do
PSD, que se manifestaram em diferentes grupos de Whatsapp
associados às estruturas e listas internas do partido. “As pessoas
estão indignadas“, explicava um deles ao Observador, falando
numa “insensibilidade que chocou”.
Questionado pelo Observador, o governante e dirigente social
democrata desvaloriza, explicando que o envio da mensagem foi
“automático”: “O email foi preparado dia 26 ou dia 27, e foi
agendado para disparar automaticamente no dia 28”. “Para mim, é
uma não notícia”, remata, aludindo a um grupo pequeno de
críticos internos que tenta “criar ruído“.
Ao Observador, o social democrata David Cristóvão, que no
mandato anterior foi deputado municipal em Almada — tendo a
confiança do PSD sido retirada, a certa altura, por críticas que fez a
acordos do partido com o PS — e com “a questão sanada” voltou a
ser candidato nestas autárquicas, assume as críticas. “Isto levantou
muita insatisfação sobretudo internamente”, explica,
acrescentando algumas críticas à promoção do governante — que
no anterior mandato foi secretário de Estado da Proteção Civil.
“Colocar pessoas sem experiência na Proteção Civil coloca as
pessoas em risco”, argumenta, dando eco às críticas sobre o facto
de Paulo Ribeiro ter sido incluído nos dois elencos governativos
sem experiência nestas áreas (é licenciado em direito e tem uma
pós-graduação sobre contratação pública, é advogado e foi
deputado, vereador e membro da Assembleia Municipal de Setúbal
e da Assembleia Metropolitana de Lisboa antes de chegar ao
Governo).
As críticas têm também a ver com Paulo Ribeiro ter promovido
militantes do partido. “Estamos à espera de mais e diferente do
que faria o PS. Estas pessoas não estão preparadas para estes
lugares”, critica um responsável com assento em órgãos nacionais,
apontando para a promoção de “boys” no partido.
Paulo Ribeiro, também em respostas ao Observador, contextualiza:
conta com pessoas do PSD, mas não só, no seu gabinete. “Tenho
duas pessoas do PSD do meu distrito, uma da parte da
comunicação, outro adjunto político. De resto há oficiais da PSP,
juristas da secretaria-geral do MAI, um militar da GNR e uma
jurista da ERSE, além de quadros da direção geral do Orçamento”.
Já o ex-militante Zeferino Boal, secretário-executivo do OSCOT
(Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e
Terrorismo), critica a “completa falta de sensibilidade” do
governante, explicando que abandonou o PSD no verão,
comunicando a decisão a Luís Montenegro e Hugo Soares, por
causa de “exemplos destes” e de ver o PSD como uma “escola de
jogos e de empregos” — Setúbal será o “máximo expoente disso”.
A discordância com o partido também surgiu depois de o PSD ter
decidido apoiar a ex-comunista Maria das Dores Meira (alvo de
buscas em janeiro por causa de ajudas de custo recebidas para
deslocações quando era autarca) na capital do distrito.
Confrontados com o facto de existirem fações diferentes no PSD
Setúbal e de por isso as críticas também poderem corresponder a
um episódio num conflito interno no partido, os críticos apontam
que a estrutura tem sido sempre liderada pelo deputado Bruno
Vitorino e por Paulo Ribeiro (que venceu pela primeira vez em
2020, tendo sido reeleito em 2022 com 80% dos votos e em 2024
com 62,4%), voltando a ser desta vez candidato numa lista única,
pelo que não estará em causa a competição pelo domínio da
distrital.
No email que espoletou a polémica interna no PSD, Paulo Ribeiro
frisa que tem sido “uma honra e um desafio” liderar a distrital,
frisando que em 2025 o PSD “reforçou-se” em eleições legislativas e
que para isso contribuiu também o distrito de Setúbal, elegendo
mais um deputado. “Por outro lado, nas autárquicas o PSD cresceu
eleitoralmente”, argumenta também.
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