HISTÓRIA 654 (SITA VALLES)

Uma comuna que acabou mal. Está nas valas comuns, afinal os amigos da URSS nao a protegeram. Uma triste realidade. Sita Valles nasceu a 23 de agosto de 1951, em Cabinda, enclave angolano situado a norte do território nacional. Era filha do engenheiro agrónomo Edgar Francisco e da professora e tradutora Lúcia Valles, ambos naturais de Goa. A família viveu em várias regiões de Angola, passando por Cabinda, Silva Porto (actual Cuíto), Benguela e Luanda, onde os três filhos frequentaram o ensino público, estudando no Liceu Salvador Correia. Em 1971, com apenas 20 anos, Sita Valles deslocou-se para Portugal, matriculando-se na Faculdade de Medicina de Lisboa. Mais do que razões académicas, a sua ida para Portugal estava ligada ao desejo de participar activamente na luta política contra o regime colonial português. Naquela época, as universidades em Angola viviam um ambiente de forte controlo político, o que levava muitos estudantes progressistas das colónias a procurar em Portugal um espaço de maior intervenção política. Em Lisboa, destacou-se rapidamente no movimento estudantil. Participou na direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina e integrou a UEC (União dos Estudantes Comunistas), ligada ao Partido Comunista Português. Demonstrava grande capacidade de organização, disciplina e liderança política. Em pouco tempo, tornou-se membro do secretariado da célula comunista da faculdade. No momento histórico da Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, Sita encontrava-se em Moscovo, como representante da UEC no congresso do Komsomol, a organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética. Após a revolução portuguesa, interrompeu os seus estudos para dedicar-se integralmente à actividade política. Em Junho de 1975, quando Angola se preparava para alcançar a independência, Sita Valles decidiu regressar ao país para contribuir com o processo revolucionário. Passou a militar no MPLA e esteve presente em Luanda na proclamação da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975. Nesse período, casou-se com José Van-Dúnem, também militante revolucionário, com quem teve um filho, João Ernesto. Devido à sua capacidade de organização, foi encarregada pelo Bureau Político do MPLA de reorganizar o sector intelectual, enquanto retomava os seus estudos de medicina. Contudo, após a independência, as tensões internas dentro do MPLA intensificaram-se. Em 1976, Sita Valles foi afastada do partido devido à decisão de expulsar militantes que anteriormente tivessem pertencido a organizações políticas estrangeiras. Passou então a trabalhar em equipas médicas no interior do país, continuando a servir a população angolana. A situação política agravou-se dramaticamente em 27 de Maio de 1977, quando ocorreram confrontos violentos em Luanda ligados ao que o governo classificou como uma tentativa de golpe de Estado. Na sequência desses acontecimentos, milhares de pessoas foram presas, torturadas ou executadas sem julgamento. Sita Valles foi presa em meados de Junho de 1977, acusada de envolvimento no chamado “movimento fraccionista”. Pouco tempo depois, foi executada sumariamente, juntamente com o seu companheiro José Van-Dúnem, sem que houvesse julgamento formal. Até hoje, o paradeiro dos seus restos mortais permanece desconhecido, e as suas ossadas continuam por identificar. A história de Sita Valles continua a ser objeto de debate e reflexão entre historiadores, investigadores e cidadãos angolanos. A sua vida recorda-nos um período complexo e doloroso da história de Angola, marcado por profundas divisões políticas. Recordar figuras como Sita Valles não deve servir para alimentar divisões, mas para refletir sobre o passado e valorizar a vida humana acima das disputas ideológicas. A história de Angola foi construída por pessoas de diferentes convicções políticas, e conhecer essas histórias é um passo importante para fortalecer a memória, a reconciliação e a unidade nacional. Fontes: Biografia baseada em textos de Helena Pato e documentos disponíveis em: 27maio.com esquerda.net Perfeito Massamba

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